Moradona de Perdizes é a Carola da vez

Laura Cardoso ganha 'Gabriela' com o bordão católico 'Jesus, Maria, José'

ADRIANA FERRAZ, O Estado de S.Paulo

24 de junho de 2012 | 03h06

A nova defensora dos bons costumes na TV nasceu no Bexiga, bairro de imigrantes italianos no centro da capital. Logo na estreia da novela Gabriela, na segunda-feira, a paulistana Laura Cardoso, de 84 anos, roubou a cena como a "carola" mais respeitada da Ilhéus de Jorge Amado. Personagem incluído na obra do autor baiano por Walcyr Carrasco, feito sob medida para a dama da dramaturgia, já tem até bordão - "Jesus, Maria, José" -, que promete cair na boca do povo.

É assim que Doroteia, a viúva de coronel que cuida dos "afazeres" da igreja na novela, reage quando vê ou ouve falar das quengas do bordel da cidade. Carola, "mas não tanto", Laura se diverte no papel, ao lado de colegas que fez ao longo de cinco décadas na TV. "É um pessoal muito bom, que tem muito carinho por mim. Eles me ajudam a encarar a rotina de gravações", conta.

O ritmo é pesado, mas, segundo a atriz, o resultado mostra que vale a pena. "Estou gravando quase todos os dias, porque uma novela que fica só quatro meses no ar precisa de fôlego. Então é corrido, mas prazeroso. As pessoas parecem estar gostando. Além do mais, não tenho medo de trabalhar. É o que sei fazer."

Twitter. Na estreia de Gabriela, a aparição de Doroteia virou assunto no Twitter. Fãs famosos correram ao microblog para exaltar as qualidades da atriz. Rainha, diva, genial. Não faltaram elogios para definir a mais nova atuação de Laura, a filha de portugueses que já viajou o mundo, mas sempre volta para casa. "São Paulo é minha cidade, não troco por nenhuma outra."

Ela nasceu na Rua da Abolição, no coração do Bexiga, de onde guarda as melhores lembranças da infância. Brincava nas ruas do bairro com os vizinhos e na escola experimentava o gostinho de fazer teatro. Diz que ali a vida era mais colorida. "Acho que isso acontecia pela mistura das raças. Tinha gente de todo tipo lá. E alegre, muito alegre", conta. Aos 16 anos, estreou na Rádio Cosmos. Foi quando se tornou Laura Cardoso. Anteriormente, era Laurinda de Jesus, nome que não agradou aos produtores. A troca deu certo, tanto no rádio como na TV. Desde a extinta Tupi, já são mais de 50 novelas.

Ainda menina, mesmo franzina, chamava a atenção pela voz forte, a paixão pelo trabalho e pelos olhos grandes. Era sucesso na frequência do rádio quando surgiu a televisão. A transição ocorreu naturalmente. "No começo, a gente continuou fazendo o que sabia. Depois é que as coisas foram mudando aos poucos, e ainda hoje mudam. Mas assim é a vida, uma constante transformação", diz ela, sem sinal de nostalgia nem de cansaço.

Laura gosta de curtir os amigos e a vida em São Paulo. Quando volta à cidade, depois de uma longa semana de gravações, vai a teatros, cinemas ou apenas caminha pelas ruas do bairro que escolheu para morar. Vive há mais de 40 anos em Perdizes, na zona oeste, onde criou as duas filhas e viu crescer as duas netas. Hoje brinca com Fernando, o único neto e atual xodó. "Depois de tanta mulher, finalmente veio um homem, né? Quando chego em casa, só quero saber de ficar com ele", diz a avó coruja.

Em um apartamento confortável, acompanha as mudanças na metrópole. Lembra que, quando chegou ali, o bairro era formado, em sua maioria, por casas em vilas tranquilas. Ao longo do tempo, foram dando espaço a torres cada vez mais altas. "Tinha menos trânsito também, mas está bom assim. Não dá para se prender no passado. Eu procuro acompanhar a evolução dos tempos. É claro que a gente sente saudades de uma porção de coisas, mas é importante observar o seu tempo e seguir com ele."

É assim que Laura comemora a carreira, de olho no futuro. Sempre disposta, com saúde e em boa forma física, não pensa em sair de cena. Ela quer mais trabalho e mais momentos de prazer ao lado de artistas consagrados. Muitos estão ao seu lado no elenco de Gabriela: Ary Fontoura, Antonio Fagundes, José Wilker... E tem ainda os iniciantes. A lista é longa e encabeçada por Maria Machadão, quer dizer, Ivete Sangalo. Generosa, não faz distinção e é louvada por isso.

O reconhecimento não é só da área artística. Em novembro de 2006, ela recebeu do então presidente Luiz Inácio Lula da Silva a Ordem do Mérito Cultural, concedida pelo governo a pessoas que se destacam em sua área e incentivam a arte. Na época, a justificativa foi de que "seu talento faz com que os personagens que interpreta não sejam esquecidos pelo público". Jesus, Maria, José!

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