Werther Santana/Estadao
Werther Santana/Estadao

Momento histórico na Vila Madalena

"Há que se superar preconceitos", diz especialista sobre o bairro após a polêmica do carnaval

Valter Caldana*, Estadão Noite

19 Fevereiro 2015 | 11h36

Análise publicada originalmente no Estadão Noite

Há acontecimentos que parecem pequenos quando acontecem, mas são simbólicos quando a história é contada tempos depois. O carnaval de rua na Vila Madalena, a ação da PM e a reação da mídia e dos moradores é um destes.

Transformar a dispersão programada em toque de recolher imposto a base de bombas e cacetadas não é aceitável numa cidade que tenta desesperadamente se reencontrar e construir suas possibilidades, mínimas, de sobrevivência. Fazer de uma festa de rua, justo o carnaval, um caso de polícia é ao mesmo tempo trágico e revelador.

O apoio que a ação do Poder Público recebeu é revelador do quanto se está longe de entender a cidade e o quanto as instituições estão despreparadas para organizá-la de modo produtivo, incapazes que são de extrair energia positiva da convivência entre seus diversos agentes.

Revela, também, como os moradores da Vila estão percebendo do pior modo sua importância e seu valor e, submetidos ao paradoxo, se equivocando na seleção de parceiros e alianças para definir os caminhos e os meios de sua preservação.

Não se percebe que acontecimentos como os deste carnaval afastam o cidadão, descaracterizam o bairro e comprometem seu valor, tornando-o, então, campo aberto para o que seus moradores mais temem: a invasão pelos prédios do temido e "insaciável" mercado imobiliário.

Bombas detonam uma gentrificação às avessas e levam à perda do valor intrínseco e agregado da região. É simples: se perder sua maior particularidade, a capacidade de receber e o desejo de lá estar, parte vital de seu valor se perde, rompendo o equilíbrio em que se encontra a disputa, legítima, pelos caminhos do futuro do bairro.

Vale lembrar que para o mercado imobiliário o bairro intelectual, boêmio e de baixa densidade serve apenas como apelo circunstancial de venda, que será rapidamente consumido. Para este, o que faz o valor permanente da Vila é sua localização e infraestrutura urbana instalada, como em qualquer outro lugar da cidade ou do planeta.

Portanto, a única chance que a Vila tem de não se destruir ou ser destruída é elevar de tal forma seu valor urbano - história, uso e ambiência - que qualquer intervenção seja muito cara, em todos os sentidos. A saída é tornar-se cara e desejada a ponto de ensejar alternativas projetuais inteligentes e inovadoras, fora da zona de conforto do mercado imobiliário, que preservem e potencializem as características que todos gostam e alguns usufruem. E que, paradoxalmente, se viabilizem economicamente sem criar o indesejado processo de expulsão de moradores e usos existentes.

Não adianta os moradores, por maiores que sejam suas razões, e são, sonharem soluções baseadas na penada das Leis. Os avanços do Plano Diretor estão se esmaecendo na Lei de Zoneamento e apelar para órgãos de preservação não é o caminho. Mesmo havendo a possibilidade do tombamento de ambiências, não há ali massa crítica para diferenciar este tipo de tombamento do simples congelamento, extremamente oneroso socialmente. Se voltaria ao "quem paga a conta".

Assim, resta uma alternativa: perceber que é na convivência entre os agentes produtores da cidade que está a solução.

Logo, é preciso que os moradores assumam que festas de rua, bares, velhos comunistas aburguesados, professores universitários em reflexão profunda, jornalistas montando redes e cavando frilas, artistas, feiras, galpões culturais, pixos, "mijões", desabusados, "maconheiros" e até alguns delinquentes são seus aliados. Mais que isso, são seus escudos, quase uma guarda pretoriana, ainda que esta, como a História ensina, também mate o Imperador de quando em vez.

Há que se superar preconceitos. Seja com os forasteiros, seja com relação ao adensamento, entendendo que este não é sinônimo de verticalização, como se vê em Paris e Barcelona, cidades caras aos moradores e frequentadores da Vila.

Acrescente-se a necessidade de um regramento alternativo de parcelamento do solo, sem o qual fica impossível a utilização inteligente e economicamente viável do miolo de quadra, imprescindível para que projetos alternativos de ocupação se materializem. Que venham a pedestrianização de vias, alteração de fluxos de carros e transporte, criação de espaços públicos, políticas de educação para a cidadania e mobiliário urbano apropriado, dando vazão à energia criativa do bairro.

Por fim, fazer um projeto de bairro decente, participativo, que possibilite novas alianças entre os agentes produtores da cidade e não a potencialização das divergências, como se está vendo mais uma vez.

*Diretor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo do Mackenzie 

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