Modelo 'plus size' ganha espaço na moda

Manequins acima de 40 e quadris com mais de 90 cm recheiam revistas e editoriais

Paulo Sampaio, de O Estado de S. Paulo, O Estado de S.Paulo

23 de maio de 2010 | 00h00

 

 

Um metro e setenta e quatro de altura, 68 quilos, 98 centímetros de quadril. A dona das medidas já foi chamada de gorda, inadequada e, algumas vezes, despachada de editoriais de moda por não entrar em um jeans tamanho 38. "Ficava arrasada, chorava, mas não queria voltar para Jundiaí", diz a modelo Stefanie Medeiros, de 18 anos, que já tomou muito chá de cadeira na agência Ford Models, esperando aparecer trabalho.

Ultimamente, ela está mais alegrinha. Depois de passar a adolescência tomando shakes dietéticos no café da manhã ("e mais nada no resto do dia") e ainda se submeter a uma lipoaspiração entre o busto e o joelho que sugou três litros de gordura ("recuperei tudo"), ela agora integra um departamento da agência chamado Ford +, criado recentemente para abrigar as "fora de medida".

Segundo a vice-presidente da Ford, Denise Céspedes, o departamento ainda está em teste. "As pessoas resistem a escalar modelos "plus size". Elas deixam de trabalhar por causa de seis, sete centímetros", diz Denise, que já trabalha com 15 meninas no Ford + (três brasileiras). Mesmo fora do Brasil, as "plus size" não costumam desfilar - são escaladas para publicidade e editoriais. "Plus size" é um eufemismo para quem veste manequim acima de 40.

Ao que tudo indica, tão cedo a Ford não vai ter concorrentes. As agências do mesmo tamanho não pretendem entrar nesse mercado. "Não temos "gostosas" em nossa cartela de modelos. Trabalhamos com rostos diferentes, não necessariamente bonitos", diz Márcio Garcez, da Way, agência de 80 entre 100 modelos que desfilam na São Paulo Fashion Week. "Gordinha não tem de desfilar, tem de ir para a academia malhar", afirma Eli Hadid, da Mega.

Quatro das seis fotos destas páginas são de "gordinhas" que posaram para editoriais de moda em revistas tão bombadas quanto Vogue Itália, V e Glamour. Para a moda, a medida mais importante, depois da altura, é o quadril. Tem de medir entre 89 cm e 90 cm. No Ford +, dá para ser maiorzinha.

Biquíni. Gary Dakin, há 14 anos no mercado americano de modelos "plus size", diz que levou tempo até conseguir emplacar seu time. "Eu tinha de acompanhar as meninas nos trabalhos. Se elas fossem sozinhas, os produtores ligavam, dizendo: "Você mandou uma gorda!" Foi preciso aparecer uma modelo como a Crystal (no alto da página, de biquíni roxo) para o mercado acreditar que poderia dar certo."

Crystal Renn, hoje manequim 42, passou anos tentando perder 22 centímetros de quadril - tornou-se, até mesmo, anoréxica. Crystal conta que, quando tinha 16 anos, seu agente garantiu que ela poderia ficar igual à modelo da foto, mostrando uma revista com Gisele Bündchen.

Acima do peso. Existem no Brasil cerca de 40 milhões de adultos acima do peso, de acordo com o último censo do IBGE. Eles têm um Índice de Massa Corporal (IMC) maior que 25, parâmetro estabelecido pela Organização Mundial de Saúde (OMS). O IMC é calculado dividindo-se o peso pelo quadrado da altura.

O da modelo potiguar Flúvia Lacerda, de 29 anos, a primeira GG a bater o bumbo no Brasil, é.... difícil calcular, já que ela não revela o peso. Digamos que tenha 85 kg (para 1,74 m); seu IMC seria 28.

É a segunda visita profissional de Flúvia ao Brasil. Na primeira, há cerca de um ano, ela diz que as pessoas reagiam incrédulas quando abria seu book. "Não existe uma formalidade no trabalho com plus size aqui. Então, a menina trabalha como atendente de telemarketing durante a semana e ganha R$ 300 para fazer uma foto no sábado. O fotógrafo é o vizinho dela, sabe?"

Apesar de não revelar quantos quilos tem, Flúvia afirma que vive bem com eles. "Se fico dizendo "Ah, meu Deus, como eu tô gorda!", isso vai aparecer na foto."

Denise Céspedes diz que recebeu fotos de quase 1.100 candidatas, desde que divulgou o Ford+. Ela não deixou publicá-las. "Preciso conversar com uma por uma, é um assunto delicado."

Finda a sessão de fotos, Stefanie caminha pelas dependências da agência com um sapato salto 15, que ela carrega com os pés, como se fosse uma menina brincando com a roupa da mãe. Para quem está de passagem, aquilo parece não ter muito sentido. Se tivesse escolhido ser biblioteconomista, engenheira, ou qualquer profissão que não exigisse dela um quadril de 90 cm, muito provavelmente seria a mulher mais bonita do escritório, da empresa, do prédio, da rua toda. Em tempo: pouco antes do fechamento desta reportagem, Stefanie foi "bookada" em Nova York. Voaria para lá ainda no fim de semana.

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