Moda volta a discutir cota racial em desfiles

Osklen diz que não conseguiu casting 100% negro; Educafro promete apelar ao MP

Flávia Tavares e Flavia Guerra, O Estado de S.Paulo

16 de junho de 2011 | 00h00

Após declarar dificuldades para montar um elenco 100% negro e reacender a polêmica da inclusão racial na moda, Oskar Metsavaht, da Osklen, levou ontem 11 modelos negros, do total de 37 de seu desfile, à passarela da São Paulo Fashion Week. "Não encontrei número suficiente de negros com o perfil da Osklen. Este não é um desfile panfletário e muito menos de protesto."

Metsavaht soube que este é o Ano Internacional da Afrodescendência no Mundo e resolveu comemorar a data na SPFW. "Queria só modelos negros por questão estética. Ficaria lindo na passarela", disse.

Não completou todo o casting, mas chegou a 30% - bem mais do que os 10% que o Termo de Ajustamento de Conduta (TAC), assinado pela São Paulo Fashion Week em 2009, exigia. E ainda um pouco mais do que os 20% que a ONG Educafro reivindica. Mas a Osklen está longe de representar a realidade.

O TAC tinha validade de dois anos e expirou há menos de um mês. Determinava que, se estilistas não levassem ao menos 10% de negros aos desfiles, a SPFW pagaria multa de R$ 250 mil. O manifesto que a Educafro fez na porta da Bienal na segunda-feira pedia que o TAC fosse renovado e a "cota" dobrasse.

"Queremos abrir mercado a brasileiros afrodescendentes. A SPFW não está na Suíça, mas em um país de maioria negra", diz Frei David Santos, diretor da ONG. Oskar não fala em porcentagem, mas defende a cota. "Antes era contra, pois não acho que isso deveria ser imposto. Hoje, sou a favor. Se para trabalhar pela inclusão e pelo fim da discriminação é necessário impor a cota, então que haja cotas."

Paulo Borges, organizador do evento, argumenta que são as marcas que escolhem seus modelos e a SPFW não tem poder para cobrar que incluam negros, índios ou qualquer outro tipo de profissional. Por meio da assessoria, disse que, embora o TAC tenha expirado, ele voltou a recomendar a cota. E sua posição sobre o tema é clara, inclusive por ter adotado um filho negro.

Mas a Educafro quer mais. Frei David promete entrar com representação no Ministério Público exigindo que o dinheiro público que a Prefeitura investe na SPFW - R$ 2,5 milhões neste ano - seja condicionado a uma contrapartida: o evento deve se comprometer a contratar apenas empresas com plano de inclusão de afrodescendentes. "Quando um estilista diz que não achou modelo negro adequado, deixa claro que só frequenta ambientes desligados da realidade. Se eles tiverem a humildade de procurar a comunidade negra organizada, a gente encontra os modelos", diz Frei David, acrescentando que no Brasil há pelo menos 30 agências especializadas em negros.

"Provincianismo". Há ainda quem diga que, muitas vezes, um negro não "combina" com o tema do desfile. "São argumentos muito antigos, coisa de racismo estético da década de 1940, quando se acreditava que o modelo de beleza era o europeu. No mundo todo, modelos negros e asiáticos hoje se sobressaem. Evitar negritude na passarela é provincianismo de brasileiro", diz Antônio Sérgio Guimarães, professor de Sociologia da USP.

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