Moda hoje é não copiar o projeto do vizinho

E oferecer plantas de diferentes tamanhos, ajustáveis ao gosto - e dinheiro - do cliente

Paulo Sampaio, O Estado de S.Paulo

16 de maio de 2010 | 00h00

Um dos motivos "sociológicos" que explicam o aparecimento de uma edificação "contemporânea" em São Paulo é a popularização do neoclássico. Reproduzido à exaustão, até mesmo em outros Estados, o estilo deixou de ser exclusividade de um nicho de enriquecidos da capital. Era preciso surgir algo que fosse.

"A classe média achou interessante, as construtoras viram que era um bom negócio e houve uma superprodução de neoclássicos. Mas a coisa ficou deturpada: o cara pinta o prédio de bege, põe um gradil e chama de neoclássico. Tem muito genérico por aí", diz o arquiteto Israel Rewin, que reivindica a paternidade do estilo.

O neoclássico ainda sofreu baques indiretos em sua imagem, como por exemplo a derrocada financeira do Banco Santos, cuja sede era um marco do estilo.

Ao mesmo tempo, especialistas afirmam que o público do alto padrão passou a conhecer arquitetura, ler sobre o assunto e agora quer fazer suas escolhas (em vez de ser escolhido). "Houve um momento em que o consumidor ia com a boiada. Hoje, as pessoas entendem cada vez mais do que é tendência e sabem exatamente onde querem morar", diz o arquiteto Pablo Slemenson, outro "pai" do neoclássico. É dele a criação da emblemática dupla de edifícios com nome de vinho, o Chateau Margaux e o Lafite, localizados na Praça Pereira Coutinho, na Vila Nova Conceição.

Entre os projetos mais recentes de Slemenson está o Les Paysages, que, por assim dizer, inaugurou o estilo contemporâneo entre os neoclássicos da região da Rua Curitiba, no Ibirapuera. Olhando para a maquete (o prédio ainda não subiu), tem-se a impressão de que se trata de um loft dúplex tipo "para executivos solteiros", nos moldes do que se vem construindo nos Jardins e Itaim-Bibi. Mas os apartamentos ali têm surpreendentes 320 m² (com variações até 450 m²). A planta cheia de cantos, ângulos e jardins faz a de um neoclássico parecer uma repartição pública.

Linha nova. No Marquise, à beira do Parque do Ibirapuera, Slemenson está ainda mais irreconhecível. Nada de gradil, arcos, frisos. A fachada têm varandões envidraçados, com detalhes em andares salteados, e a mansarda virou cobertura. Ele explica. "O modelo de produção mudou. O prédio não é mais construído por um grupo de amigos que sabem o gosto um do outro, como um clube. A relação não é mais direto com o consumidor."

Ok. Já que a mistura de elementos é o grande diferencial do contemporâneo, então basta inventar uma fachada bem inacreditável, ou com elementos de prédio comercial, certo? Errado, diz o empresário Otávio Zarvos, que só executa "arquitetura contemporânea de qualidade".

Seus prédios têm rampas, vãos, pilotis inclinados e a assinatura de grifes como a dos arquitetos Isay Weinfeld e Andrade Morettin. Na sala do Aimberê, na rua de mesmo nome, no Sumaré, o arquiteto Paulo Mencarini se delicia mostrando os detalhes de sua aquisição. Ao lado de uma parede inclinada, ele explica. "Aqui nesse andar são dois apartamentos. No de cima, um. Lá embaixo (ele olha pela janela), tem os apartamentos-casa."

Um dos "orgulhos" de Zarvos, o edifício Ourânia, abriga apartamentos de 124 m² e de 220 m². Cada uma das 15 unidades tem sua própria planta, 100% personalizável. O arquiteto explica que o tamanho do apartamento não tem nada a ver com o extrato social do comprador. "No mesmo prédio você tem a família, o separado, os recém-casados, o sozinho", diz. Só muda a configuração familiar.

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