MMDC vive na história do neto de Camargo

Homônimo do avô herói de 1932 mora em Vargem Grande do Sul, trabalha na prefeitura e jamais celebrou o aniversário da Revolução

Edison Veiga, O Estado de S.Paulo

09 de julho de 2010 | 00h00

Não fosse um detalhe quase perdido em sua árvore genealógica, nada de extraordinário haveria na vida de Antonio de Camargo Andrade Neto. Mas foi esse detalhe que fez com que a reportagem do Estado fosse até a sua casa, na semana passada. Antonio tem um homônimo famoso. Mais que homônimo, um parentesco. Ele é neto de Antonio Américo de Camargo Andrade, que entrou para a História - assim, com H maiúsculo - na forma de uma letrinha. Morto em 1932, tornou-se o C da sigla MMDC, que relembra os quatro jovens que perderam a vida em 23 de maio daquele ano, no episódio que antecedeu a Revolução Constitucionalista de 1932, cujo 78.º aniversário é celebrado hoje.

O neto de Camargo nasceu e cresceu em São João da Boa Vista, no interior paulista, mudou-se para a vizinha Vargem Grande do Sul quando se casou, e lá construiu sua vida.

Agricultor, tornou-se funcionário da prefeitura em 1995 - é encarregado da frota municipal. Pai de dois filhos - um de 29, outro de 27 anos -, vive com a mulher, a fonoaudióloga Maria Stela, em uma simples e aconchegante casa. Tem 60 anos.

Orgulho. Antonio mostra com orgulho a placa (na foto abaixo) que ficava na lápide de seu avô, no Cemitério do Araçá. "Só que escreveram errado", diz. "Não tinha esse "N.". E ficou faltando o "Andrade"". Os restos mortais de Camargo, assim como os de tantos outros heróis de 1932, foram trasladados entre 1955 e 1970 - em sucessivas cerimônias - para o Monumento-Mausoléu ao Soldado Constitucionalista de 1932, erigido no Ibirapuera, zona sul de São Paulo, popularmente conhecido como Obelisco.

"Sempre tive muita admiração pela história de meu avô", conta, com os olhos começando a marejar. "Mas nunca fiquei espalhando que sou neto dele, nunca tive vontade de participar das comemorações de 9 de Julho. Não gosto muito de aparecer. Não é meu estilo, não."

Talvez por isso, a descendência ilustre não tenha alterado o curso de sua vida. Jamais foi condecorado com uma medalha, sua família não recebe pensão e a única entrevista que Antonio havia dado, até então, tinha sido para um jornal de Vargem Grande do Sul.

A viúva de Camargo, Inaiá, morreu em 1992. Morou até o fim da vida na mesma casa em que vivia com o revolucionário, na Rua Bela Cintra, nos Jardins. Inaiá jamais se casou de novo. "Ela tinha uma certa bronca de tudo, tanto que isolava os netos dessa história. Acho que por ressentimento", conta o irmão de Antonio, Clezio Camargo Junior, de 64 anos.

Letras. Camargo foi o único entre os MMDC a deixar descendentes diretos. Mário Martins de Almeida, Euclides Bueno Miragaia e Dráusio Marcondes de Sousa eram solteiros e não tiveram filhos. "Nunca nos encontramos com nenhum parente dos outros. Estou sabendo por você essa coisa de que nenhum deles deixou filho", diz Antonio.

O engenheiro civil paulistano Alexandre Miragaia, de 47 anos, é parente de Euclides Miragaia. "Meu avô era primo dele", afirma. "É uma história muito forte em nossa família. Na época, os Miragaias doaram todo o ouro que tinham para a Revolução, mas nunca houve um reconhecimento digno disso."

Alexandre também jamais participou das comemorações em memória do episódio histórico. "Houve uma época em que pensamos em pegar depoimentos dos familiares mais antigos, que vivenciaram tudo, para recontar com detalhes. Mas o tempo foi passando, as pessoas morrendo, e essa memória se perdeu." Permanece viva, ao menos, no DNA.

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