Mistério de ''Guerra e Paz'' intriga experts

Restauradores não entendem como, após 5 décadas, algumas tintas ainda não secaram

Bruno Boghossian, O Estado de S.Paulo

03 Fevereiro 2011 | 00h00

Centímetro a centímetro, os gigantescos painéis que compõem Guerra e Paz, de Candido Portinari, voltam a ganhar tons originais. Com pincéis, tubos de ensaio e um microscópio eletrônico, restauradores tentam reverter no Rio efeitos da exposição ao sol, desgastes provocados por um pigmento misterioso e até respingos de coquetéis servidos na sede da ONU, em Nova York, onde a obra ficou por 54 anos.

Serão necessários quatro meses para a recuperação minuciosa das 28 peças que compõem os murais, de 140 m² cada. No ateliê montado no Palácio Gustavo Capanema, aberto à visitação até 20 de maio, o público poderá ver de perto um trabalho que envolve análises químicas, soluções tecnológicas e técnicas aparentemente rudimentares, como o uso de esponjas para limpeza.

Para calcular com precisão os danos provocados aos painéis desde sua conclusão, em 1956, os restauradores identificaram até a posição das janelas do prédio das Nações Unidas. E descobriram que placas inferiores de Paz sofreram desgaste maior, pois o mural estava voltado para sudoeste e foi bombardeado por anos pela luz do pôr do sol. "O pigmento branco que Portinari usou reagia com facilidade à luz, o que deixou algumas áreas do painel esbranquiçadas", diz Edson Motta Júnior, um dos coordenadores da restauração.

Apenas 5% de Guerra e Paz sofreu com esse fenômeno, mas a equipe vai fotografar cada ponto danificado com um microscópio digital e aplicar resina para devolver a cor original à obra.

Outra particularidade do material usado por Portinari intriga restauradores. Eles enviaram amostras a laboratório da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) para tentar entender como, após cinco décadas, algumas tintas não estão completamente secas. A textura viscosa facilitou acúmulo de poeira e consequente alteração das cores, que será corrigida com esponjas que absorvem impurezas. "De modo geral, os painéis estão em ótimo estado. Encontramos apenas problemas pontuais, que serão corrigidos com o menor número possível de intervenções", afirma o restaurador Claudio Valério Teixeira.

Em SP. A restauração dos imponentes murais exigiu que eles fossem totalmente desmontados. Os painéis só voltarão a ser vistos novamente como uma única obra a partir de julho, em São Paulo, na primeira exibição mundial de Guerra e Paz após sua recuperação. João Candido Portinari, filho do artista, negocia patrocínio para exposição de dois meses na Oca, no Ibirapuera.

Quando voltar à ONU, em 2013, os painéis de Guerra e Paz estarão cobertos por um verniz que reduzirá desgastes por luz e poluição. Restauradores também recomendarão uso de películas nas janelas do prédio.

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