Tiago Queiroz/ Estadão
Tiago Queiroz/ Estadão

Maior prédio de SP, Mirante do Vale vive ‘renascimento’ e vira moradia pela 1ª vez

Conjuntos comerciais estão sendo reformados e transformados em apartamentos no centro de São Paulo; vista do Vale do Anhangabaú é principal atração

Priscila Mengue, O Estado de S.Paulo

26 de outubro de 2020 | 05h00

Erguido aos pés do Vale do Anhangabaú e do Viaduto Santa Ifigênia, o Edifício Mirante do Vale chega aos 54 anos em um momento de renovação. Hoje ainda o maior prédio da cidade e antes o mais alto do País por décadas, está em um processo de conversão de uso informal, em que ao menos dezenas de conjuntos estão sendo transformados em apartamentos, atraindo moradores pela primeira vez.

Também chamado de Palácio W. Zarzur, o prédio é originalmente comercial, reunindo mais de mil de escritórios de empresas e profissionais liberais, e passou a viver a transformação recente ao adotar uma portaria 24 horas. Isso atraiu o interesse de compradores de diferentes portes, que, com uma única unidade ou várias em diferentes andares, apostam em locação de curto e de longo prazo ofertada em plataformas como Airbnb, Booking e Quinto Andar, e também por meio de imobiliárias.

Uma dessas pessoas é a produtora Viviane Dias, de 37 anos, que está terminando a reforma de uma unidade do 24.º andar, cujo andamento divulga em um perfil de Instagram chamado Loft Mirante do Vale. Vizinha do prédio, ela percebeu por acaso que as luzes durante a noite se tornaram mais frequentes e resolveu se informar na portaria. Em menos de um mês, já tinha adquirido o imóvel. 

“A gente sabe que é uma região de muita procura, de gente para fazer curso, trabalhar, conhecer a região, que tem turismo no entorno”, justifica. Para ela, o Mirante pode se tornar “o novo Copan” - cujos apartamentos atraem ensaios fotográficos, turistas e paulistanos pela paisagem - se receber mais investimentos em melhorias.

Um dos setores que também têm apostado no prédio é o de coliving, com ao menos duas empresas do tipo com apartamentos em obras ou já ocupados, com o formato de morador único (pelo tamanho dos espaços, adaptados para ser um studio ou quitinete). Uma delas é a Yuca, que tem duas unidades no edifício, ambas com fila de espera.

Segundo Rafael Steinbruch, sócio-fundador da empresa, o Mirante chama a atenção pela localização e acessibilidade a diferentes tipos de transporte e atrações, além da vista. “Para o paulistano, ainda existe muita desconfiança com o centro. Tem até maior aceitação com gente de fora”, diz ao citar um dos inquilinos que tem no prédio, um francês.

“É um exemplo de que diferentes usos conseguem conviver harmoniosamente, é democrático, não sobrecarrega o prédio. É muito mais sustentável o uso misto do que o uso só residencial ou comercial”, defende.

Até hoje, a empresa que construiu o edifício, a W. Zarzur, ocupa os últimos andares, cuja cobertura costuma alugar para festas e eventos. “Foi muito arrojado naquele momento fazer mais de 50 andares, de levar material lá em cima. A logística era muito diferente do que se vivia no contexto na época, sem grua, sem concreto bombeado”, comenta Rogério Atala, diretor executivo de engenharia.

Projetado pelo engenheiro Waldomiro Zarzur juntamente com o arquiteto engenheiro Aron Kogan, o prédio tem 51 andares e 170 metros. Para Atala, mesmo com um edifício em obras no Tatuapé prestes a se tornar o maior da cidade, o Mirante seguirá um ícone. “Ser mais alto não é só o que vale. A vista que tem aqui é algo único e gera curiosidade.”

Embora diga desconhecer o uso misto informal, ele crê que o espaço tem potencial para atrair moradores. “Se isso acontecer, acho que vai ter uma demanda. Os jovens estão querendo voltar a morar no centro.”

Procurada, a administração do edifício negou haver apartamentos no local e não concedeu entrevista. Segundo a Prefeitura de São Paulo, não consta processo em análise na Secretaria Municipal de Licenciamento (SEL) para mudança de uso.

 

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