Ministros criticam intervenção policial durante manifestação

Para Cardozo e Maria do Rosário, houve abuso e violência; Ideli Salvatti atacou qualidade do transporte público de SP

ERICH DECAT , TÂNIA MONTEIRO , VERA ROSA / BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

15 Junho 2013 | 02h00

O governo federal desencadeou ontem uma ofensiva para condenar a repressão da Polícia Militar ao quarto protesto contra o aumento da tarifa de transporte em São Paulo. O ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, definiu a ação da PM no episódio como "arbitrária" e "muito violenta". A chefe da Secretaria de Relações Institucionais, Ideli Salvatti, disse que a população "tem motivo" para protestar contra o transporte coletivo e a ministra de Direitos Humanos, Maria do Rosário, afirmou que "as forças do Estado não podem agir de forma violenta".

Para Cardozo, houve "excesso" e "abuso" por parte de policiais que entraram em confronto com manifestantes na quinta-feira, usando bombas de gás lacrimogêneo e tiros com balas de borracha. "Nós tivemos uma situação que, evidentemente, é inaceitável. Não podemos aceitar a violência, não importa de onde ela parta, se é de manifestantes ou da autoridade policial", insistiu o ministro da Justiça." Apesar das críticas à atuação dos policiais, Cardozo "congratulou" o governo do Estado por abrir uma investigação para apurar a atuação dos militares.

Pouco antes de oferecer novamente ajuda ao governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), para a mediação de conflitos, Ideli disse que o transporte coletivo na capital paulista "é caro, ineficiente e não é adequado". Logo depois, a ministra afirmou que o governo federal "está fazendo sua parte ao investir R$ 127 milhões" em obras de mobilidade urbana. "Está na hora de Estados e municípios fazerem sua parte", cobrou Ideli.

O governo paulista é administrado pelo PSDB, mas a Prefeitura está nas mãos do PT, partido da ministra. Ao perceber que suas declarações em defesa do protesto contra a má qualidade do transporte público poderia ser mal interpretada, Ideli emendou: "É claro que, em hipótese nenhuma, podemos admitir violência nem por parte dos manifestantes, com depredação, nem por parte da Polícia Militar."

Em nota, a ministra Maria do Rosário foi na mesma linha e condenou a violência policial. "Não combina com o Brasil a violência a manifestantes nem a profissionais da imprensa que estavam trabalhando", escreveu. "Não é justificável que manifestações utilizem métodos violentos, mas também não é justificável que sejam reprimidos de forma violenta."

Cardozo insistiu que o governo Dilma não pode intervir na situação porque os Estados têm autonomia. "É claro que nós acompanhamos os fatos de segurança pública e nos colocamos à disposição, mas só podemos auxiliar se formos acionados pelo governador", disse. "Isso não vale só para São Paulo, mas para todos os Estados." O ministro afirmou esperar que os responsáveis pela "violência injustificada" contra os manifestantes sejam punidos. "A polícia tem o dever de coibir abusos, mas nunca de agir de forma arbitrária ou violenta. Tenho certeza de que o governo de São Paulo fará uma apuração criteriosa."

Cardozo não quis polemizar em relação aos argumentos do comando da Polícia Militar, que atribuiu os confrontos no protesto contra o aumento da tarifa de transporte coletivo a um suposto descumprimento de um acordo feito com os manifestantes. O coronel responsável pela operação, Reinaldo Rossi, afirmou que o trajeto combinado começaria na Praça Ramos de Azevedo, passaria pela Praça da República e terminaria na Praça Roosevelt. A confusão começou quando os manifestantes anunciaram que subiriam a Rua da Consolação.

Candidato. Questionado ontem se não seria ele que estaria politizando a ação, Cardozo disse que isso "não faz sentido" e negou, mais uma vez, ser pré-candidato ao governo paulista. "Jamais nos eximimos das nossas responsabilidades nem fazemos acusações na perspectiva de nos eximir de nossos deveres. Essa não é a nossa prática."

Mas o ministro foi criticado pelo secretário-chefe da Casa Civil, Edson Aparecido. "Quem quer ajudar de verdade, não fica fazendo firula pela imprensa. Liga para o secretário de Segurança, liga para o governador. Pode ligar para mim. O ministro sabe exatamente como isso deve ser feito concretamente porque já o fez em outras oportunidades. A declaração dele destoa do ótimo diálogo e alto grau de integração que temos com a presidenta Dilma e com o prefeito Haddad."

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