Ministério Público reabre ação sobre curvas perigosas

Arquivada em 2002, investigação apontava 250 locais com risco de acidentes em SP; promotora quer saber o que a Prefeitura fez

Luísa Alcalde, O Estado de S.Paulo

06 de junho de 2010 | 00h00

JORNAL DA TARDE

O Ministério Público Estadual (MPE) decidiu reabrir ação para investigar as curvas mal-projetadas ou sem sinalização da cidade de São Paulo, que representam riscos de graves acidentes aos motoristas. A apuração foi arquivada em 2002, com uma lista de 250 pontos problemáticos. Oito anos depois, a promotora Maria Amélia Nardy Pereira, da Habitação e Urbanismo, quer saber se a Prefeitura já corrigiu os problemas.

A pedido da reportagem, o engenheiro de Tráfego Sérgio Ejzenberg vistoriou alguns dos endereços do Programa de Correção de Curvas Perigosas enviados ao MPE pela Companhia de Engenharia de Tráfego (CET). Nos sete locais - seis vistos in loco e o sétimo, na Avenida Giovanni Gronchi, no Morumbi, por meio de fotografias -, Ejzenberg fez medições de raio e geometria e concluiu que em apenas um caso houve intervenções que melhoraram a situação.

Um dos pontos problemáticos fica na frente do Palácio dos Bandeirantes, sede do governo estadual. Ali, o guardrail está amassado, sinal de que muitos carros não completam a curva.

Resolvido. O único ponto problemático que passou por intervenção e agora dá segurança aos motoristas, na opinião de Ejzenberg, é a esquina da Rua Dr. Zuquim com a Capitão Rabelo, na zona norte. Ali, na subida antes da curva, foi instalada uma lombada eletrônica que obriga os motoristas a reduzirem a velocidade. No local também foram colocadas placas de velocidade máxima permitida.

Os demais locais, segundo ele, ainda precisam de obras e sinalização. Entre as curvas vistoriadas, a mais perigosa, na opinião do especialista, foi a alça de acesso da Ponte do Limão para a Marginal do Tietê, sentido Rodovia Ayrton Senna, na zona norte. Durante a meia hora em que a reportagem e o especialista permaneceram no local, 15 veículos fizeram o percurso cantando os pneus. Em apenas um dos casos a derrapagem era visivelmente proposital e provocada por motorista imprudente.

Em só uma das curvas perigosas, na Avenida Ataliba Leonel com a passagem para a Rua Mimosa do Sul, em Santana, na zona norte, há sinalização adequada, segundo o engenheiro. "Ainda assim há um grave problema de sobrelevação da pista", diz.

"Só colocar placa avisando sobre o perigo em nada resolve", critica o consultor de Trânsito Horácio Figueira. "Os motoristas precisam começar a acionar a Prefeitura em caso de acidente." Segundo ele, a Câmara Municipal precisa "acordar para o problema porque há muitas pessoas morrendo nessas curvas".

Caminhões. Na inspeção, feita na manhã do domingo passado, Ejzenberg ficou cinco horas fazendo medições para concluir qual velocidade máxima evitaria que veículos tombem.

A promotora Maria Amélia vai sugerir aos órgãos de trânsito mudanças na velocidade máxima permitida para caminhões que chegam à capital pelas rodovias. "Por serem altos e pesados, esses veículos têm eixo de gravidade diferente dos carros. Se fizerem a curva na velocidade permitida e não na recomendada, abaixo da atual, vão tombar."

PARA ENTENDER

Tema foi foco de trabalho de três décadas

As "curvas assassinas" de São Paulo foram o foco de trabalho de Ardevan Machado, doutor pela Escola Politécnica da USP, por 30 anos. Foi essa dedicação que inspirou o Ministério Público Estadual a abrir a ação, em 1998. Ardevan morreu aos 77 anos, em 2003. Costumava telefonar às redações de jornais perguntando "até quando deixaríamos as curvas continuarem matando nossos filhos". Conseguiu alterar o traçado ou sinalização de pelo menos 50 curvas.

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