Werther Santana/Estadão
Werther Santana/Estadão

Ministério Público investiga reflexos de bloqueio de trânsito por isolamento social em SP

Cidade registrou congestionamentos e pontos de lentidão

Fernanda Boldrin, O Estado de S.Paulo

05 de maio de 2020 | 23h06

A Promotoria de Justiça de Habitação e Urbanismo, do Ministério Público de São Paulo, instaurou nesta terça-feira, 5, inquérito civil para “apurar os reflexos urbanísticos” dos bloqueios de vias na capital, que tiveram início na segunda, 4. Montados pela prefeitura com o objetivo aumentar as taxas de isolamento social - que ainda estão abaixo do índice previsto pelas autoridades -, os bloqueios levaram a cidade a registrar congestionamentos e pontos de lentidão. 

A Portaria do inquérito considerou que a medida “acabou por causar congestionamentos e indesejáveis dificuldades para a circulação em geral”, inclusive de ambulâncias. O texto diz que esses resultados podem, a princípio, “gerar reflexos negativos para o combate à pandemia em questão, além de consequências para a ordem urbanística.” Também foi solicitado à Companhia de Engenharia de Tráfego que envie, em dez dias, informações sobre estudos técnicos que embasaram a medida, que esclareça se há previsão de outros bloqueios ou adequações, e que informe quais as consequências já observadas para a circulação de pedestres, profissionais de saúde, veículos de transporte coletivo e veículos que atendem a situações emergenciais de saúde, segurança pública e outros serviços essenciais.

Segundo a professora de planejamento urbano da Universidade de São Paulo (USP) Luciana Royer, numa cidade como São Paulo, “desenhada para dar prioridade ao deslocamento por meio do transporte individual motorizado”, qualquer bloqueio em vias arteriais causa impacto grande no sistema como um todo. “Mesmo que haja fluxo menor por conta da quarentena, há impacto no trânsito, porque as atividades decretadas como essenciais não estão tão restritas a ponto de diminuir de maneira drástica a circulação de veículos." Ela aponta ainda que, quando é feito no horário de pico, o bloqueio pode acabar prejudicando trabalhadores essenciais que precisam se deslocar para o trabalho. 

Já o professor de Arquitetura da Universidade Presbiteriana Mackenzie Lucas Fehr considera que, em comparação com períodos normais, a extensão do congestionamento causado é pequena. Mas o professor aponta que medidas como bloqueios “nunca são agradáveis.” “Seria mais desejável que a população se conscientizasse e aderisse de forma mais intensa ao distanciamento social, visto os índices terríveis da pandemia em São Paulo”, afirmou Fehr. 

Na segunda, o bloqueio valeu para quatro grandes avenidas, uma em cada região da cidade. Na zona sul, o bloqueio foi no cruzamento das Avenidas Moreira Guimarães e Miruna. Na zona oeste, entre a Avenida Francisco Morato e Rua Sapetuba. Na região norte paulistana, no cruzamento das Avenidas Santos Dumont e do Estado. Por fim, na zona leste, o bloqueio fica entre a Radial Leste e a Rua Pinhalzinho. As interdições, que de início foram realizadas apenas no horário de pico da manhã, das 7h às 9h, liberaram apenas uma faixa em quatro avenidas de grande circulação.

Já nesta terça, o bloqueio é total, com liberação apenas para o transporte coletivo, para ambulâncias e veículos de profissionais da saúde. A CET também instalou mais três pontos de bloqueio, na Avenida Engenheiro Armando de Arruda Pereira, na Avenida Santa Catarina e na Avenida Peri Ronchetti. Os bloqueios foram pensados para propositalmente criar desconforto ao motorista, que diante do trânsito pode optar por ficar em casa. Mesmo assim, segundo dados do governo do Estado, a taxa de isolamento social na capital ficou em 48% no primeiro dia da medida. 

Procurada pela reportagem, a CET não se manifestou até 22h30 desta terça.   

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.