Minicracolândia perto da Ceagesp leva medo a moradores da Vila Leopoldina

A algumas quadras de condomínios de alto padrão, viciados se reúnem de madrugada para usar droga em ruas abandonadas do bairro

Rodrigo Brancatelli, O Estado de S.Paulo

01 de agosto de 2010 | 00h00

São 22h30 de domingo, dia 25, e seis pequenas chamas de cachimbo são os únicos pontos visíveis na calçada escura da Rua Baumann, na Vila Leopoldina, zona oeste de São Paulo. É preciso chegar perto, muito perto, para entender aquela cena e distinguir a silhueta dos mendigos que fumam crack ali, sem que ninguém os importune.

São homens com cascões de sujeira no rosto e nos braços, escondidos em meio a papelões e cobertores sujos, que raspam a calçada em busca de migalhas que caem dos outros cachimbos. O cheiro de urina é insuportável. Não há luz além dos isqueiros, não há movimento além dos "noias", não há nada além do total abandono e da degradação.

Antigo reduto industrial e hoje um dos principais alvos do mercado imobiliário de São Paulo, a Vila Leopoldina exibe imagens que não aparecem nos folhetos de novos condomínios. Bem perto de prédios residenciais neoclássicos com unidades de até R$ 900 mil e a poucos minutos do Parque Villa-Lobos, dezenas de moradores de rua passam a madrugada vendendo e fumando crack. A cena, já tão particular das ruas da cracolândia, no entorno desabitado da Estação da Luz, é copiada ali nos arredores da Rua Baumann e das Avenidas Manuel Bandeira e Doutor Gastão Vidigal, no entorno igualmente degradado da Companhia de Entrepostos e Armazéns Gerais de São Paulo (Ceagesp).

"Desde o começo do ano eles começaram a se instalar ali e a fumar crack sem parar, até porque não há iluminação pública e a polícia passa sem fazer nada", diz Silvério dos Santos, manobrista de um restaurante colado a um dos pontos de uso de crack na Vila Leopoldina. O endereço fica a dois quarteirões do 91.º DP. "Eles ficam a madrugada inteira e de manhã assaltam quem está no ponto de ônibus usando faca e caco de vidro. Eu já vi esses assaltos várias vezes, mas não dá para fazer nada. Você fica sem reação porque os noias ficam tão alterados que dá medo."

Segundo os vizinhos, muitos dos quais já foram assaltados ou tiveram suas casas invadidas, os moradores de rua se juntam pelas vias do bairro a partir das 18h30, quando uma igreja da região serve comida. À noite, perambulam sem ponto fixo, até se encontrarem na Rua Baumann e nas Avenidas Manuel Bandeira e Doutor Gastão Vidigal. Esse local já é conhecido pelo grande número de mendigos ? segundo levantamento da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe) da USP, a Vila Leopoldina é o oitavo bairro com mais moradores de rua de São Paulo.

Ainda de acordo com comerciantes e moradores mais antigos, há uma maneira de distinguir essa população dos usuários de crack: muitos "noias" têm falhas no cabelo porque arrancam os fios com a depressão que chega quando a droga acaba.

O crack vem de uma pequena favela ao lado da Ceagesp. Um carro do Estado chegou a ser abordado há cerca de duas semanas por um dos traficantes, sem nenhuma cerimônia. A reportagem ainda visitou a região por três dias consecutivos. Além de flagrar o uso de droga, registrou a atuação da polícia. Ocasionalmente, as viaturas passam e não fazem nada. Em outras vezes, quando o número de usuários é maior, os carros da PM fazem barulho para dispersar as rodas ? nesse momento inicia-se a rotina nômade que a droga exige, mas os usuários não demoram para voltar para suas calçadas, os cobertores sujos e os cachimbos de crack.

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