'Minhocões' são rediscutidos no mundo

17 cidades demoliram suas estruturas - ou estão prestes a fazê-lo -, enquanto São Paulo segue sem planos definidos para derrubar seu elevado

RODRIGO BURGARELLI, O Estado de S.Paulo

27 de maio de 2012 | 03h02

Inaugurado em 1970, o Elevado Costa e Silva é considerado uma das maiores aberrações urbanísticas de São Paulo. Quatro prefeitos já prometeram demoli-lo - Luiza Erundina (em 1993), Marta Suplicy (em 2004), José Serra (em 2006) e Gilberto Kassab (em 2010) - mas nenhum sequer deixou um projeto consistente de demolição. Essa mesma apatia não se repetiu ao redor do mundo. Ao menos 17 cidades na América do Norte, Europa e na Ásia já demoliram minhocões ou estão perto de fazê-lo.

O número foi levantado pelo Institute for Transportation & Development Policy (ITDP), que analisou tanto as causas quanto as consequências das remoções. Os Estados Unidos, onde o culto ao automóvel reinou por décadas e fez surgir os primeiros elevados urbanos para veículos, no fim da década de 1950, são o líder no ranking, com 12 estruturas já derrubadas - ou prestes a serem.

Segundo o ITDP, a remoção dos minhocões não acontece simplesmente porque os governos locais estão percebendo que a cultura do transporte individual é ruim. Os motivos reais são de ordem mais prática. Um deles é o custo de manutenção, como o que ocorreu em Milwaukee, nos Estados Unidos. A demolição do seu elevado de 1,6 km e 30 anos custou cerca de US$ 25 milhões, enquanto o gasto estimado para a reforma da estrutura era de quase US$ 60 milhões a mais que isso.

Outro motivo para a derrubada dessas vias são os projetos de revitalização de áreas urbanas degradadas - algo parecido com o que se planeja para capitais brasileiras.

São Francisco, na Califórnia, fez um projeto parecido com o que hoje está sendo pensado para o Rio: demoliu seu minhocão de 2,6 km na beira do porto e transformou o local em um bulevar. Hoje, o Embarcadero, como é conhecido, é um dos principais pontos turísticos da cidade.

Habitação. Já Seul, na Coreia do Sul, decidiu demolir um minhocão de 9,4 km, erguido na mesma época que o paulistano, para recuperar seu entorno que, em uma área residencial, havia perdido quase metade dos moradores das redondezas.

Ao custo estimado de R$ 511 milhões, o viaduto foi demolido e uma nova via verde foi construída. O valor saiu todo do mercado imobiliário, por meio de títulos, como os que deverão ser usados em São Paulo, caso o projeto prometido por Kassab - a demolição da estrutura, como parte da Operação Urbana Lapa-Brás - saia do papel.

Minhocões também são derrubados quando o poder local percebe simplesmente que, ao contrário de anos atrás, eles já não são a melhor solução para a mobilidade da cidade. Essa lógica começou a ser notada ainda no fim dos anos 1960, quando engenheiros de tráfego americanos e ingleses chegaram à conclusão de que criar novas ruas, avenidas e viadutos nem sempre diminuía os tempos de viagem - em alguns casos, até aumentava, uma vez que obras como essas acabam fazendo com que mais pessoas decidam se locomover de carro.

Helena Orestein, diretora do ITDP Brasil, reconhece que ainda há bastante resistência para a demolição do minhocão de São Paulo, por causa dos 70 mil motoristas que trafegam por ali todos os dias. Mesmo assim, ela acredita que é questão de tempo para que seja demolido. "À medida que a sociedade civil começa a colocar isso na pauta de discussões, isso influencia as decisões do governo. O foco já não está mais nos carros, mas nas pessoas que poderiam usar aquele local", afirma Helena.

NA ÍNDIA ACONTECE O CONTRÁRIO

Enquanto cidades europeias, americanas e brasileiras discutem o fim dos seus minhocões, Bangalore, na Índia, inaugurou um novíssimo, com 9,5 km de extensão, há menos de 2 anos.

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