Minhocão tem um domingo com piscina e churrasco

Com direito a gramado sintético, evento do festival Baixo Centro ganhou apoio dos vizinhos; verba foi obtida com 'vaquinha online'

ALLINE DAUROIZ, O Estado de S.Paulo

02 Abril 2012 | 03h01

Com duas piscinas de 1 mil litros, churrasqueira e gramado sintético, o recém-criado Movimento Baixo Centro terminou ontem seu primeiro grande evento, o Festival Baixo Centro, que, desde o dia 23, promoveu atrações culturais gratuitas e, ontem, ocupou parte do Minhocão e a Praça Marechal Deodoro, em Santa Cecília, na região central.

Entre as atividades de ontem, um cortejo com caminhão-pipa fez a lavagem das ruas entre a Praça da República e a Praça Marechal Deodoro com água de cheiro. "Quisemos fazer um ritual de limpeza como o das escadarias do Bonfim e também ironizar as recentes medidas de limpeza do Kassab na região da cracolândia", explicou a pesquisadora de tendências Ana Maria Tannus, de 30 anos, uma das organizadoras do evento. "Moradores do bairro nos apoiaram, mas os motoristas nos xingaram."

Depois de atividades de música, dança e pintura no Elevado, ao fim do dia jovens descolados esparramavam-se no "gramado", que foi apelidado de "jardins suspensos", em clima de piquenique, enquanto cenas de filmes ambientados em piscinas eram exibidas em um telão. Na Praça Marechal Deodoro, moradores de rua e um público mais alternativo dançavam ao som de bandas de reggae e de ritmos afros e brasileiros.

Segundo a organização do evento, o movimento, que é independente e colaborativo, foi criado em setembro passado para "ressignificar" a região em torno do Minhocão, com ocupações para "fissurar, hackear e disputar as ruas". Para esse evento, foram arrecadados cerca de R$ 24 mil com doações pelo site de "vaquinha virtual" Catarse.me, além de um leilão de obras de arte e rodas de samba promovidas pelos organizadores.

Divulgado pelas redes sociais, o evento independente não teve apoio da Prefeitura.

Sobre a colagem de lambe-lambes artísticos e a pintura do asfalto do Elevado, a pesquisadora cultural Andressa Vianna, de 26 anos, responsável pela parte financeira do projeto, disse que não se pretendia ir contra a Lei Cidade Limpa: "Prefeitura, não queremos danificar o patrimônio, apenas cutucar", ressaltou.

Polêmico. O festival dividiu opiniões. A principal crítica foi o fato de a divulgação do evento ficar restrita à internet. "Só soube (do evento) porque meus amigos passaram na frente e me avisaram", disse o consultor técnico Vlamir Ramos, de 40 anos, que costuma pedalar no Elevado nos fins de semana. "Não gostei. Lembrou Woodstock, com esse pessoal alternativo."

"Achei cafona. É legal deixar o chão colorido? É. Mas não entendi a proposta", afirmou a autônoma Carolina Vieira, de 32 anos, que passeava de bicicleta.

Já a psicóloga Viviane Horesh, de 53 anos, veio da Granja Viana, em Cotia, na Grande São Paulo, só para ver o festival. "Fiquei sabendo do movimento pela internet e achei legal essa ocupação cultural de um espaço que sempre foi muito marginalizado."

Para a professora de audiovisual e videomaker Tamara Ka, de 53 anos, que mora próximo do Minhocão, movimentos como o do Baixo Centro estão ficando recorrentes na região. "Ainda tenho medo de andar (pelo centro), mas sinto que as coisas estão melhorando e movimentos como esse ajudam a trazer o olhar das pessoas para o centro."

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.