Fernando Dantas/AE
Fernando Dantas/AE

Minhocão: 3,4 km de extensão e 40 anos de polêmicas

Solução mais problemática que SP já concebeu, o Elevado Costa e Silva mostra nas pistas e sob as vigas cenas da realidade paulistana

, O Estado de S.Paulo

25 Janeiro 2011 | 00h00

Em 1971, ao completar 417 anos, a capital paulista ganhou de presente o Elevado Costa e Silva. Desde então, discute-se se a cidade deveria tê-lo colocado de pé. Em seu primeiro dia como ligação das zonas leste e oeste, o viaduto congestionou. No dia seguinte à inauguração, o Jornal da Tarde já lançava a pergunta: "Por que o Minhocão, inaugurado ontem, será um dos problemas do trânsito de São Paulo?" Até hoje, não se sabe a resposta.

Tanto em suas quatro pistas quanto sob suas vigas, o Elevado reflete a realidade paulistana. Por cima, motoristas sofrem com congestionamentos. Na parte de baixo, comerciantes, ambulantes e pedestres convivem com moradores de rua, usuários de crack e travestis. Grafiteiros e funcionários da Prefeitura travam uma batalha: uns enchem as mais de 90 colunas de cores, os outros pintam tudo de cinza. De segunda a sábado, o viaduto recebe mais de 120 mil veículos entre as 6h30 e as 21h30. Aos domingos, vira espaço de lazer.

Ao longo do tempo, a via de 3,4 quilômetros tornou-se parte da vida da cidade. A ligação da Praça Roosevelt e da Avenida Francisco Matarazzo abriga duas estações do Metrô, terminal de ônibus e linhas 24 horas. Há banco, hotel, estacionamento, sapateiro, chaveiro, restaurante, mercado, hospital, mecânico, escola, igreja.

A lista de problemas é tão extensa quanto. Corre-se o risco de ser assaltado no carro ou nas calçadas esburacadas. O canteiro central amontoa diariamente duas toneladas de entulho. Quando chove, a água escorre do Minhocão e alaga pontos das Avenidas São João e General Olímpio da Silveira e da Rua Amaral Gurgel. Hoje a dúvida permanece: o que fazer com o presente?

Alternativas. Não se sabe como resolver o Minhocão, mas é fácil imaginar como seria a região se ele não tivesse sido erguido. Se o então prefeito da capital, Paulo Maluf, tivesse desistido de construir a via elevada, a área não teria o aspecto de abandono que tem hoje. Os prédios não teriam sofrido com a desvalorização e o comércio seria mais sofisticado.

"Não tenho a menor dúvida de que a região seria bem melhor. Toda a área por onde ele passa hoje seria uma parte nobre da cidade, como é Higienópolis. Por onde passa o Minhocão, o que se vê é abandono, degradação", afirma o arquiteto e urbanista Michel Gorski. Ele explica que a prioridade deve ser a qualidade de vida das pessoas que moram nos bairros cortados pela via. "E não a circulação do automóvel."

A principal obra de Maluf em seu primeiro mandato como prefeito de São Paulo durou um ano e dois meses. Tempo recorde. Antes mesmo da inauguração, o Minhocão já causava polêmica. Além da desvalorização dos imóveis e da instalação de marginalizados em seus baixos, discutia-se também se o elevado - considerado inseguro por especialistas - resolveria o problema do trânsito no eixo leste-oeste.

A ex-prefeita Luiza Erundina, que dirigiu a cidade entre 1989 e 1992, foi a primeira a defender a demolição do Minhocão. O fim do elevado foi pauta ainda dos governos Marta Suplicy, José Serra e, agora, Gilberto Kassab.

"É claro que existe um problema na ligação leste-oeste e que o Minhocão atendeu à necessidade do trânsito naquela época. Mas o custo foi alto", afirma a arquiteta e professora de projeto do Mackenzie Anne Marie Summer. Em 2006, ela e outros arquitetos apresentaram um projeto que propõe a ligação da Lapa, na zona oeste, até o Bresser, na leste, por meio de trilhos. E, ao lado desses trilhos, vias expressas ligariam os dois pontos da cidade.

Para Marcelo Rozenberg, vice-presidente do Instituto de Engenharia, a demolição tem de vir acompanhada de propostas que viabilizem o trânsito. "É necessário criar alternativas para remover o Minhocão e melhorar as condições da capital. Isso não requer só dinheiro, mas ação integrada e contínua. É preciso criar um mecanismo alternativo para que a cidade sofra o mínimo possível com a mudança."

DIA DE FESTA

Shows

Maria Gadú, Paulo Miklos, Paulo Ricardo e outros artistas se apresentam a partir das 19h na Av. São João. Grátis. No Sesc Pinheiros, a cantora Miúcha mostra com a Orquestra Sinfônica Municipal repertório de Tom Jobim, às 18h (R$ 14). No Memorial da América Latina, as estrelas serão Mônica Salmaso e a banda Mantiqueira, às 19h30, Grátis.

Tour

Quer passear pelos pontos turísticos de SP de trólebus? É grátis, das 9h às 16h, no Pátio do Colégio.

Exposição

Na Passagem Literária da Consolação, destaque para fotos do centenário do Teatro Municipal. Das 7h às 22h. Grátis.

Cinema

Filmes que tiveram a cidade como cenário são atração na Galeria Olido. Entre eles, O Homem que Virou Suco, às 17h, e Cidade Oculta, às 19h30. R$ 1.

CINCO PERGUNTAS PARA...

Paulo Maluf, DEPUTADO FEDERAL E EX-PREFEITO DE SÃO PAULO

1. A ideia do Elevado surgiu em sua gestão?

O Minhocão é projeto e realização 100% do Paulo Maluf. Quando alguém diz que tem um projeto, pergunto se é projeto executivo ou se é rabisco. Posso fazer um projeto ligando Manaus a Porto Alegre e ser uma ideia maluca, sem viabilidade. Como é que se podia ligar a zona oeste a zona leste sem semáforos?

2. Como foi o período de projeto e obras?

O Minhocão foi a melhor obra de engenharia feita na cidade de São Paulo e a mais rápida em execução. Foi feito em um ano e dois meses, porque eu não podia interromper a Avenida São João. Fizemos um canteiro de obras no Largo Duque de Caxias, onde fazíamos as vigas em concreto. À noite, caminhões levavam as vigas até a Avenida São João e, por meio de guindastes, elas eram colocadas no lugar certo.

3. O que acha de demolirem sua obra?

A ideia de demolir o Minhocão é uma tragédia para a cidade. Aliás, não precisa demolir. Por que não fechar o Minhocão 15 dias, para ver o que acontece com o trânsito? Hoje passam por ele mais de 70 mil veículos por dia.

4. Como o senhor avalia o que aconteceu no entorno do Minhocão?

Não vou depreciar a Avenida São João, porque tenho muitos eleitores lá. Mas ela não era um lugar que você podia chamar de chique. Era um lugar bom de se morar, ao lado do centro da cidade.

5. O senhor está dizendo que não houve desvalorização dessa região?

Já era como é. Não piorou nem melhorou. Os prédios possuem apartamentos de 100, de 80, de 60 metros. E antes era um lugar de apartamentos bem populares. Não tinha nada chique.

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