Felipe Rau/Estadão
Felipe Rau/Estadão

'Minha filha gritava de dor', diz moradora de prédio que desabou

Casal saiu desesperado do 5º andar do Wilton Paes de Almeida; quadro do pai é gravíssimo e filha está na UTI

Felipe Resk, O Estado de S. Paulo

03 Maio 2018 | 22h40

Na madrugada de terça-feira, Walkiria Camargo do Nascimento dormia na cama com o caçula, de 1 ano, quando acordou com os gritos do marido. “Acorda, acorda! Ó o fogo!”, dizia o pintor Pedro Viana Ribeiro, de 32 anos, com parte do corpo já em chamas. No sofá, a outra filha, Maria Cecília, de 3, também estava adormecida.

“De repente, tinha um ‘fogarão’ atrás da geladeira”, conta Walkiria, que diz não ter ouvido explosão. No susto, pegou o filho no colo e correu para fora do barraco, no 5.º andar do Edifício Wilton Paes de Almeida, no Largo do Paiçandu. Gritou por socorro e pediu que vizinhos trouxessem baldes d’água, mas viu as chamas se propagarem pela fiação exposta e cheia de gambiarras. O fogo tomou as madeiras que separavam os quartos, os móveis velhos, o prédio.

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Conseguiu descer com a criança nos braços pela escada. Não teve tempo de salvar nem os documentos. Para trás ficaram aparelho de som, fogão, TV, tudo que havia ganhado de doação. Na rua, viu que Ribeiro tinha resgatado Maria Cecília. “Minha filha gritava de dor.”

Desesperado, o casal bateu no vidro do primeiro carro que passou e conseguiu uma carona para a Santa Casa de Misericórdia de São Paulo, no centro. Com 2/3 do corpo atingido e queimaduras de terceiro grau, o pai logo foi internado - e lá permanece. Em estado gravíssimo, a filha teve o corpo todo enfaixado e foi transferida para a UTI do Hospital das Clínicas, onde Walkiria tem passado as noites.

Curto. O depoimento da moradora do apartamento onde o fogo começou é o principal elemento para a Polícia Civil considerar a causa do incêndio esclarecida. Segundo as investigações, houve um curto-circuito em uma tomada, onde estavam plugados um micro-ondas, a geladeira e a TV.

Moradores da ocupação chegaram a relatar que viram o casal brigando naquela noite. Walkiria, no entanto, nega. “Falaram que ele (Ribeiro) tinha jogado álcool em mim, isso tudo é mentira, não teve briga.”

“O próximo passo é ver se tem como responsabilizar alguém, até criminalmente, por esse fato”, diz o delegado seccional Marco Antônio de Paula, do Centro. Os responsáveis podem responder por lesão corporal e homicídio culposo (quando não há intenção de matar).”

Walkiria morava lá desde 2017. Desempregados, ela e o marido sustentavam a família com R$ 420 do Bolsa Família. Metade do valor (R$ 210) ficava com o MLSM, como aluguel. “Era baratinho. A situação (do prédio) era muito crítica. Estava lá por necessidade, para minhas crianças não ficarem na rua.” Até esta quinta, não havia sido procurada por nenhum líder do movimento.

Buscas. O resgate continua na área, agora com retirada mecanizada dos escombros. Oficialmente, quatro vítimas são procuradas - outras 44 pessoas que poderiam estar no prédio não foram localizadas. 

 

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