Milícias ocupam mais favelas no Rio que facção

Estudo analisou 250 comunidades e constatou que 100 são controladas por grupos de policiais; em seguida, está o Comando Vermelho, com 84

Bruno Paes Manso, O Estado de S.Paulo

11 de novembro de 2010 | 00h00

As milícias, grupos criminosos formados por policiais militares e civis, bombeiros, agentes penitenciários, aposentados e da ativa, ocupam hoje mais territórios do que as grandes facções do narcotráfico no Rio. Na lista das 250 principais favelas pesquisadas (estima-se que na capital são mais de mil), 100 são controladas pelas milícias, 84 pelo Comando Vermelho, 35 pelos Amigos dos Amigos e 31 pelo Terceiro Comando Puro.

O levantamento foi feito pelo pesquisador do Instituto de Ciências Policiais da Universidade Cândido Mendes Paulo Storani, ex-capitão do Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope) e mestre em Antropologia. No trabalho foram usadas informações de líderes comunitários e da Delegacia de Repressão ao Crime Organizado da Polícia Civil do Rio de Janeiro (Draco). "Esta é somente a primeira etapa de um estudo mais amplo, que pretende entender a origem das milícias, acompanhar as transformações do crime no morro para servir de base para as instituições policiais, que não fazem pesquisas", diz Storani.

"Tropa de Elite 2". As milícias existem desde a década de 1980, mas só passaram a chamar a atenção depois que ampliaram os territórios sob sua influência, principalmente nesta década.

Cada território dominado por milicianos costuma ter lideranças autônomas, ao contrário das quadrilhas do tráfico, que respondem a comandos únicos. As milícias se concentram principalmente na zona oeste e ganham dinheiro com a cobrança de taxas de segurança dos moradores, gás, transporte coletivo e gatonet (TV a cabo ilegal).

Eram toleradas e chegaram a ser definidas por políticos cariocas como "mal menor". Os ânimos se inverteram principalmente a partir de 2008, quando uma Comissão Parlamentar de Inquérito na Assembleia Legislativa do Rio escancarou o drama das comunidades dominadas por esses grupos.

Políticos, policiais e autoridades da área de segurança pública eram cooptados. O resultado de acobertamento e impunidades era violência e forte opressão contra moradores que se opunham aos milicianos. O tema finalmente se popularizou depois do filme Tropa de Elite 2, que pôs os milicianos no centro da trama - como os principais vilões.

Paulo Storani esteve ontem em São Paulo para assistir ao documentário Rio de Janeiro: Segurança em Jogo, que estreia no dia 21 no Discovery Channel. Ele participa do filme, que debate as condições do Rio para ser a sede da Olimpíada.

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