JB Neto/AE
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Micro-ônibus atropela quatro, mata um e causa protesto no ABC

Moradores dizem que coletivos costumam trafegar em alta velocidade no local do acidente; vítima tinha 15 anos

Daniela do Canto, da Central do Notícias,

03 Novembro 2009 | 07h51

O estudante Wesley Ribeiro da Silva, de 15 anos, morreu atropelado por um micro-ônibus na noite desta segunda-feira, 2, na Vila Metalúrgica, em Santo André, no ABC paulista. Ele estava em um bar com outras três pessoas, que também foram atropeladas, mas não correm risco de morte. O motorista do coletivo, identificado como Amarildo Mariano da Silva, de 33 anos, foi preso em flagrante depois de fugir do local do acidente. Ele responderá por homicídio culposo (sem intenção de matar).

 

Cerca de 150 moradores das imediações se revoltaram com o atropelamento e fizeram um protesto. Eles incendiaram um micro-ônibus na Avenida da Paz e depredaram outro, ambos da empresa Consórcio União Santo André, a mesma do veículo que atropelou as vítimas. Três barricadas foram montadas - duas na Rua Comendador Júlio Pignatari, onde fica o bar - e outra na entrada no Viaduto Juvenal Fontanella, próximo ao local.

 

Os manifestantes também atacaram com pedras carros que passavam pelas imediações e incendiaram guaritas de fiscais do transporte público. Houve confronto com a polícia, que chegou ao local pouco antes da 0h30 da terça-feira, 3. Para responder aos ataques feitos com pedras e pedaços de pau, os policiais militares usaram balas de borracha. Foram enviadas ao local viaturas do 10º Batalhão de Santo André e do 6º Batalhão de São Bernardo do Campo, também no ABC paulista.

 

Ainda durante a manifestação, os moradores arrastaram o guincho do Consórcio União Santo André, que foi até o local para recolher o coletivo incendiado, e tentaram jogar o veículo no Rio Tamanduateí, na Avenida dos Estados.

 

O guincho era ocupado por três funcionários. Um deles conseguiu fugir. Os outros dois afirmaram ter sido agredidos pelos manifestantes. "Eu estava puxando o micro-ônibus com o guincho e daí o pessoal começou a quebrar tudo, a bater no vidro. Eu saí mas voltei para pegar os meus documentos e acabei apanhando", contou o motorista, Francinaldo Tomasini, de 30 anos.

 

"O povo gritou 'desce, desce' e falava 'bota fogo'. Nós apanhamos adoidado", afirmou o encarregado Afonso Mariano da Silva, de 58 anos. Afonso é pai do motorista que dirigia o micro-ônibus no momento do acidente, mas não quis comentar o atropelamento. Com medo, o terceiro ocupante do guincho, um eletricista, fugiu do local. Ele foi a pé até a garagem da empresa, que fica na Avenida Guaianazes, na Vila Homero Thon, em Santo André. "Ele levou mais de meia hora para chegar lá", contou Afonso.

 

Moradores incendiaram ônibus do Consórcio União Santo André, dono do veículo que atropelou as vítimas

 

O acidente

 

Wesley estava sentado na mesa de um bar na calçada da Rua Comendador Julio Pignatari com os ajudantes José Elandio da Cunha, de 33 anos; Adriano da Costa, de 21, e a auxiliar de serviços gerais Maria Aparecida de Lima Araújo, de 44. Amarildo vinha da Avenida da Paz na direção do micro-ônibus da linha T24 - Estação Utinga, que estava sem passageiros. O ponto final da linha fica na mesma rua do bar. Ao virar a esquerda na Rua Comendador Julio Pignatari, o motorista perdeu o controle do veículo, invadiu a calçada e atropelou as quatro vítimas.

 

O adolescente morreu na hora. Os três feridos foram levados ao Pronto-Socorro (PS) Central da cidade. Cunha sofreu uma fratura exposta na perna direita e passou por cirurgia. Os outros dois feridos, em estado menos grave, foram medicados e liberados.

 

José Carlos Ferreira da Costa, de 45 anos, dono do bar, afirmou que Amarildo costumava frequentar o local há algum tempo. "Ele veio uns três anos aqui direto e sempre bebia no horário de trabalho, já chegou a ser afastado da empresa. Mas fazia uns três anos que ele não aparecia aqui", garantiu. Costa estava dentro do bar no momento do acidente, pouco antes das 22 horas. "Ouvi o barulho e daí vim socorrer o pessoal", completou.

 

Segundo moradores, os motoristas de coletivos costumam dobrar a mesma esquina onde Amarildo perdeu o controle do veículo em alta velocidade. "No último sábado eu vinha do trabalho e ia atravessar a rua em frente ao bar quando veio um micro-ônibus. Tive de dar um passo para trás. Se eu não paro, sou atropelada", afirmou uma auxiliar de serviços gerais de 27 anos, que preferiu não se identificar. "Eles (os motoristas) não têm responsabilidade, querem andar como se estivessem em um avião, voando", avaliou.

 

O gerente de estacionamento Velcide Ribeiro da Silva, de 51 anos, pai do adolescente morto, confirmou as declarações. "A velocidade deles (motoristas) é altíssima. Lá é uma curva perigosa e eles não respeitam".

 

Sonhos interrompidos

 

Um menino carinhoso e cheio de sonhos. É assim que o pai de Wesley definiu o filho. "No último final de semana ele falou que queria fazer faculdade e cursar medicina", contou. "No sábado, ele me pediu um beijo. Parece que sabia o que ia acontecer", disse, emocionado.

 

Silva contou ter criado o filho dentro da igreja. Ele ainda tem uma menina, de 18 anos. A família frequenta a Assembleia de Deus. Ele disse que Wesley havia saído de casa pouco antes do acidente para comprar um pacote de bolachas. "Ele pediu R$ 2 para a minha esposa e foi, mas acabou perdendo a vida". A família do adolescente mora em um apartamento no mesmo prédio onde fica o bar no qual ele foi atropelado. Wesley cursava a 8ª série do ensino fundamental e ajudava o pai no estacionamento há pouco menos de um ano. "Era uma maneira dele ficar do meu lado", explicou o gerente.

 

Nas horas livres, o adolescente gostava de jogar futebol. "Ele era uma criança maravilhosa", afirmou o pai. "O que aconteceu é uma tragédia, está doendo na alma. É uma dor que ninguém vai apagar", desabafou.

 

Manifestantes tentaram jogar guincho da empresa no Rio Tamanduateí e teriam agredido o motorista

 

Prisão

 

O delegado Roberto Von Haydin Júnior, do 2º Distrito Policial de Santo André, contou que Amarildo disse ter fugido do local do crime com medo de ser linchado. Ele foi localizado pela polícia pouco depois, próximo à empresa onde trabalha, e levado até a delegacia. Conforme o delegado, o motorista alegou que o banco do micro-ônibus se soltou no momento em que ele fez a curva, o que causou a perda de direção do veículo. Mas uma avaliação inicial da perícia não constatou irregularidades no assento.

 

"Agora será feita uma perícia mais profunda, inclusive com o uso de um boneco com o mesmo peso do motorista", explicou Júnior. Um exame clínico feito em Amarildo não constatou embriaguez. Mas o delegado também solicitou um exame de sangue para verificar uma possível ingestão de álcool. O resultado deve ficar pronto em aproximadamente uma semana. A perícia ainda deve apurar a velocidade em que o motorista fez a curva da Avenida da Paz para a Rua Comendador Julio Pignatari.

 

"Ele (Amarildo) foi preso por um crime que não prevê fiança e continuará preso aguardando um parecer da justiça, que decidirá se ele responderá ou não pelo crime em liberdade", explicou o delegado. De acordo com ele, a pena para o crime de homicídio culposo na direção de veículo automotor vai de 2 a 4 anos, mas pode ser aumentada em um terço neste caso, porque o motorista estava no exercício da sua profissão, na direção de um veículo que conduz passageiros.

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