Meus simplórios carnavais de salão

Carnaval de paulistano, nos anos 60, era de salão. Círculo Militar, Clube Paulistano, Clube Tietê e outros para classe média - o do Anhembi era a massa mais popular. Também havia bailes nos três dias e três noites nesses clubes da Vila Mariana e redondezas, em que me aventurei diversas vezes até desistir do carnaval por todos os anos 80/90/2000 e só retornar meu interesse nos últimos 5 anos, quando fui seguidamente tocar em Recife, onde, na minha opinião, está o melhor carnaval de rua do Brasil. O baile de salão de São Paulo era tão sem suingue, tão bate-estaca, que eu penso que por isso, nos anos 90, fui me apaixonar por música eletrônica e techno!

Edgard Scandurra, O Estado de S.Paulo

09 de fevereiro de 2013 | 02h00

O que lembro com carinho eram as desventuras, frias e roubadas que, do mesmo modo fácil como eu entrava, num passe de mágica acabava me livrando. Em 1969, tinha 7 anos e meus pais ainda eram sócios do Círculo Militar. Nem eu nem eles imaginávamos que podíamos estar pulando ao lado de alguém que podia ter torturado preso político, mas me lembro da tortura pela qual passei. Num momento do baile, acabei me empolgando, dei uns pulos, dancei um frevo e me perdi feio dos meus pais. Tanto que uns amigos me levaram pra casa. Imaginem uma criança fantasiada de índio sem os pais, deixada na porta de casa sem ninguém dentro e sem a chave. Lembro que chorei muito, tinha medo de que me raptassem, ou de que nunca mais meus pais voltassem. Havia uma pichação no muro da frente que dizia: "Comunismo é igual a escravidão". Não entendia nada daquilo, mas morria de medo desse picho! Esse foi meu primeiro mico de carnaval. Mas logo viriam mais...

Em 1971, já quase homem, com meus 9 anos, entrei numa enorme roda no baile do Clube Aquático do Bosque cantando Máscara Negra. Bem na parte alegre dos versos "vou beijar-te agora, não me leve a mal", aquela menina que me olhava insistentemente - e não me paquerava como eu imaginava - me enfiou goela abaixo um punhado de confetes quando abri a boca! Engasguei, tossi e fiquei com raiva. Peguei minha munição de confetes e saí em busca da menina. Não a encontrei. Minutos depois, quando me distraí e voltei a cantar "eu mato quem roubou minha cueca pra fazer pano de prato", ela apareceu e jogou mais confete na minha boca. Fiquei com mais raiva ainda, mas me lembro bem do que pensei: se ela fez isso duas vezes é porque, de certa maneira, presta atenção em mim e isso era tudo o que eu queria, mesmo sem saber o que realmente queria. Depois dessa confetada, ela sumiu.

Alguns anos depois, dei o troco, mas em outra menina. Era 1976, meu primeiro carnaval sozinho sem os pais. Mesmo na matinê, eu estava sozinho! Nenhum amigo, o que fui fazer lá? Paquerar, é claro! Após pular muito, sentir saudade do rock, acabei dançando com uma menina mais alta do que eu e ficamos juntos no intervalo em que a banda descansava e as pessoas sentavam no chão. Tentei dar um beijo, depois outro... poxa, estava dando certo! Até o baile recomeçar e eu propositadamente me perder da moça e me engraçar com outra, mais baixa e fofinha. Os beijos rolaram e o baile acabou. Não sei explicar, mas dentro de mim havia aquela sensação de que amor de carnaval não durava nem um baile e discretamente disse que ia ao banheiro e sumi da vista dela. Mas não conhecia o salão e me perdi. Quando enfim achei a saída, dei de cara com as duas meninas e as respectivas mães. Não pensei duas vezes e corri para o Fusca do meu pai, que me esperava na frente do clube.

Anos depois, já adulto, os bailes perderam o sentido. O grande lance do carnaval era comprar uma passagem de ônibus e me mandar para praia ou campo. Ou andar pela cidade sem trânsito, pouca gente na fila de cinema, um silêncio maravilhoso na terça-feira e o maravilhoso feriado da Quarta de Cinzas, que vale meio período, mas, como eu estudava de manhã, aprovava a ideia de ficar na cama. Uma vez, tentei o carnaval de rua, ainda na Avenida Tiradentes, mas a curtição durou cinco minutos - a bateria dava um barato, mas depois o mesmo samba com aquela letra ufanista repetidas vezes transformou minha experiência psicotrópica num pesadelo bad trip. Tentava assistir aos concursos de fantasia pela televisão e achava todos os carnavalescos com cara de Fumanchu. Não entendia o capricho das fantasias, só imaginava o trabalho que tinham dado.

Meus carnavais simplórios me ajudaram a estimular um senso de sobrevivência em situações embaraçosas e a me divertir sem muito dinheiro pois nunca levei um tostão a essas festas. E hoje o carnaval tem um sentido profissional. Nunca imaginei que um roqueiro pudesse trabalhar nas festas de Momo, mas no Recife as músicas não são apenas marchinhas e frevos. Pelo 5.º ano seguido, tenho tocado lá com Karina Buhr, que não faz exatamente música carnavalesca. Embora eu tenha aprendido a curtir e a entender melhor o espírito folclórico e cultural da festa. E São Paulo como fica? Depois do advento da "boquinha na garrafa" e da mulata Globeleza, a pureza e ingenuidade das marchinhas foram substituídas por sexismo e malícia desenfreados. Não sou um exemplo de moral, mas gostaria de me sentir seguro quando, no futuro próximo, me despedir de meus filhos a caminho de seus primeiros bailes e seus primeiros micos.

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