Meus próprios vizinhos

Há um momento na vida em que você passa a ter vizinhos. Não os de seus pais; seus próprios vizinhos. O poeta, psicanalista e genial louco manso Hélio Pellegrino se deu conta do significado desse acontecimento no dia mesmo em que se instalou em sua primeira residência de homem casado. Tendo ido pitar um cigarrinho na janela, foi saudado pelo senhor da casa em frente, que lhe tirou o chapéu. Hélio, jubiloso, virou-se para dentro e, com o vozeirão de barítono que iria encantar Nelson Rodrigues, anunciou à mulher: "Já tenho meus próprios vizinhos!"

Humberto Werneck, O Estado de S.Paulo

23 Janeiro 2011 | 00h00

Como o poeta, como você, comecei com vizinhança alheia, por sinal fartíssima. Ao lado, moravam o tio João Antônio, a tia Yedda e os 11 filhos, aos quais a certa altura se somaram, com os pais, os cinco do dr. Ciro e da dona Thereza. Acha pouco? Lá em casa éramos dez, mais o primo João Carlos. Para a miuçalha da casa dos tios, pode ser que eu tenha me tornado aquele vizinho inesquecível, não por méritos pessoais, admito, mas graças à tranqueira que costumava jogar pela janela, no segundo andar, sempre que arrumava o armário. A brincadeira se chamava "grila". Era como atirar miolo de pão para ávidas piabas. Confesso que um dia cometi a vilania de jogar também uma moeda aquecida. Dou aqui a mão, não digo à moeda incandescente, mas à palmatória, desde que em sentido figurado.

Daquele tempo me ficou toda uma galeria de vizinhos inolvidáveis. O Renato Mentalidade, de apelido autoexplicativo. Os irmãos Pamonha, idem. A Sônia Sabonete, assim chamada pelo horror que tinha de que pegassem nela (o que fazíamos expressamente), e que no ônibus não segurava em coisa alguma sem envolvê-la num lenço. O Alemão, talvez o único morador das redondezas que não esteve lá em casa no velório da vovó Dora, e que dias depois, topando na rua com meu pai recém-órfão, se desculpou nestes termos: "Eu até vi um caixão saindo, dr. Hugo - mas achei que era um dos seus meninos..."

Não me lembro do primeiro vizinho que tive ao chegar a São Paulo, faz 40 anos. Não tive a sorte, digamos assim, de meus amigos Fernando e Helena, que viviam em frente a um sobrado onde uma doida, doida caseira, mas de pedra, passava o dia abraçada à grade da janela, a esganiçar um texto desafiador - "Gosto de mulher sim, e daí?" -, seguido de invariável Roberto Carlos: "Amaaaada amaaaante..."

Tempos depois, em Paris, tive vários vizinhos - a começar por mademoiselle Rakov, a búlgara a quem já dediquei toda uma crônica, e que talvez valesse todo um livro. Ela não foi, percebo agora, a primeira nativa de seu país em cujas cercanias me tocou viver: em Belo Horizonte (também já contei isso), morei a pequena distância da residência do advogado Pétar Russév, imigrante búlgaro que aqui se converteu em Pedro Rousseff e que veio ser pai de, você adivinhou, Dilma Rousseff.

Ainda em Paris, me lembro de Marie Hélène de Oliveira ("dê Oliverrá"), que me alugou seu apartamento no Boulevard Montparnasse e, esperançosa a ponto de por na mala o velho vestido de noiva, veio garimpar um ex-marido português aqui extraviado. Tendo descoberto o tal Oliveira em Cabo Frio, nos braços, é claro, de uma mulata, minha chorosa senhoria refluiu a Montparnasse, onde se recolheu a uma nada romântica mansarda, bem em cima de minha cabeça.

No fim do contrato, fui me empoleirar no 22.º andar de um prédio sem graça. Se nessa ocasião não me tornei voyeur, não foi por falta de empenho de monsieur Dagois, o marido da concièrge. Já no primeiro dia o camarada, um senhor de ar respeitável com cara de Geppetto, aproveitando uma saída de minha mulher, me levou à janela - e, apontando o prédio em frente, forneceu mapa e cronograma para xeretar gente pelada, eventualmente em ação. "Quarto andar de cima para baixo", pôs-se a sussurrar monsieur Dagois, com bafo de vinho ruim e profusão de perdigotos, "sexta janela da direita para a esquerda, entre 8h30 e 9 horas da noite..." Você pode não acreditar, mas não cheguei a fazer uso das instruções daquele Geppetto lúbrico.

Se ninguém se opuser, volto ao assunto, pois vizinho é que não me falta.

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