'MEU TRABALHO É ENCHER A BARCAÇA O DIA TODO'

Nos últimos dois anos, Paulo José Bezerra da Silva, de 30 anos, operou a escavadeira para retirar 3,6 milhões de sedimentos do Rio Tietê

TIAGO DANTAS, O Estado de S.Paulo

16 Março 2013 | 02h04

Se o Rio Tietê não transborda há dois anos, parte do mérito é de Paulo José Bezerra da Silva, de 30 anos. Desde 2011, ele trabalha como operador de escavadeira e é um dos 121 operários envolvidos no desassoreamento do rio.

"Meu trabalho é tirar a sujeira do rio e encher a barcaça. Faço isso o dia todo", resume Paulo. Acostumado a lidar com máquinas pesadas desde os 18 anos, quando começou a dirigir caminhões, Silva nunca imaginou que, um dia, o principal rio de São Paulo poderia ser o seu local de trabalho.

"No começo, fiquei cismado. Minha mulher até achou estranho ir trabalhar no Rio Tietê. Na primeira vez que embarquei, tive aquele impacto: só tinha visto o rio passando de carro pela Marginal. Nem sabia que podia passar barco por aqui. Mas com o tempo a gente acostuma."

Os movimentos feitos pela escavadeira que tira o lixo do Tietê são os mesmos de uma máquina que faz terraplanagem em uma obra, algo com o qual já estava acostumado. "Trabalho com essa máquina há quatro anos. É praticamente a mesma coisa que uma terraplanagem. A diferença é que balança mais. Mas não tem jeito de cair, não."

Lixo. Outra diferença entre os dois trabalhos é que, enquanto deixava um terreno plano, Silva podia notar quando seu trabalho estava perto do fim. Mas o lixo que ele tira do fundo do Tietê parece não acabar nunca. "O que a gente tira mais é terra e lodo mesmo. Mas tem de tudo: pneu, garrafa, lixo doméstico."

Morador de Guaianases, na zona leste, onde vive com a mulher e três filhos, Paulo diz gostar do trabalho. Nem o cheiro do rio o incomoda. "É bom saber que seu trabalho ajuda o Tietê a não transbordar."

A escavadeira fica apoiada sobre uma barcaça. O braço mecânico tira a terra do leito do rio e, na sequência, joga a água sobre uma peneira. A terra é colocada em outra barcaça, enquanto o lixo sólido é levado, por caminhões, para um aterro sanitário. A barcaça navega pelo Tietê até Carapicuíba, na Grande São Paulo, onde a terra é descartada.

Nos últimos dois anos, foram retirados 3,6 milhões de sedimentos, segundo o Departamento de Águas e Energia Elétrica (Daee). "O Tietê é o grande canal de drenagem da metrópole. A água de todos os córregos da cidade, em algum momento vem parar aqui. Por isso, o desassoreamento não pode deixar de ser feito nunca", diz o chefe de gabinete do Daee, Giuliano Deliberador.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.