Meu Quixote

Eu estava lá quando a mãe dele morreu, estava naquele quarto, naquela madrugada, mas não a vi morrer - só tinha olhos para meu pai, que no outro lado da cama me pareceu tomado por um descontrole emocional para mim inédito. Bateu em mim uma pena sem tamanho daquele homem, já tão velho, coitado, e agora integralmente órfão. Nos meus 18, era velhíssimo, digno de dó, alguém que tivesse, como meu pai naquele instante, 44 anos de idade.

HUMBERTO WERNECK, O Estado de S.Paulo

12 de agosto de 2012 | 03h04

Eu não estava lá, 45 anos mais tarde, no momento em que ele morreu, deixando-me, também a mim, integralmente órfão, e já iam bem longe os meus próprios 44. A sua voz se havia transformado em sussurros cada vez menos audíveis, ele que gostava tanto de falar, e pouco antes de calar-se em definitivo fez saber, no que talvez tenham sido suas últimas palavras: "Estou no mato sem cachorro".

Posso imaginar o quanto deve ter custado àquele fazedor saber que estava num beco sem saída. Pois não era homem de entregar os pontos. Me lembro dele, por exemplo, a pelejar por uma causa que na minha adolescência me soava quixotesca, ao ponto de sentir constrangimento ao ver meu velho naquele papel. As mineradoras - insistia ele ao menor pretexto, ou sem pretexto algum, no papo, nas palestras, em escritos e entrevistas que ia oferecer aos jornais - estavam aniquilando as matas que, no outro lado da Serra do Curral, o paredão que emoldura a capital mineira, garantiam a sobrevivência dos mananciais de água da cidade.

A certa altura me mandei, e foram anos sem botar os pés na minha cidade. Ao revisitá-la, topei com um onipresente adesivo nos automóveis: "Olhe bem para as montanhas". Mas já era tarde. Olhar para as montanhas, agora, era constatar o desastre: não só as matas como o próprio perfil da Serra do Curral haviam sido roídos pela glutonaria férrea das mineradoras.

Ambientalista quando ainda não se usava a palavra, meu pai dedicou boa parte de seu tempo a outra empreitada quixotesca, tema de uma crônica em que o chamei de O Espalhador de Passarinhos: sem alarde, capturava aves onde fossem abundantes, para soltá-las onde houvessem escasseado ou desaparecido. Vivia às turras com o Ibama, que burramente via nele um mercador de pássaros. O mesmo Ibama que anos mais tarde criaria um Prêmio Hugo Werneck para estimular o repovoamento de aves.

Em nossas longas décadas de convívio, nem sempre nos entendemos, e muitas vezes francamente nos desentendemos. Inalcançável, aquele ex-campeão de basquete que nunca fumou nem bebeu, que acordava cedo e tomava banho frio, que se casou com a primeira namorada e com ela viveu por mais de meio século. Jovem, ele era duro, era brusco, felizmente sem violência física. Não se inventou assim, por certo: vinha de troncos ásperos a que faltavam os musgos do carinho. Mas o tempo lhe foi trazendo doçura e flexibilidade. Num percurso bem pouco encontradiço, meu pai envelheceu para a esquerda, se me faço entender, pois não falo aqui de política: nos machos, sobretudo, a ferrugem da velhice costuma acentuar a intolerância e o conservadorismo, mas com papai foi diferente. Ele ganhou veludos.

Com minha própria quota de intolerância juvenil, eu não podia vê-lo assim - até o dia em que, por encomenda de uma revista, escrevi aquele texto, O Espalhador de Passarinhos, para em seguida me dar conta de algo inesperado: embora não tivessem sido esquecidos, nossos contenciosos se haviam desarmado; ainda bem que não cheguei a derramar sobre meu pai um picles verbal que por anos deixara acidular.

Não houve o tribunal que eu programara, nem aquele texto não premeditado operou algum milagre. Minha surpresa foi a de quem não percebera que também havia caminhado para a compreensão. E não deveria me espantar: não é assim, escrevendo, que um escritor, mesmo sem o saber, pode encarar e resolver suas mais fundas questões?

Me faz uma falta danada, aquele camarada.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.