'Meu pai me matriculou, mas nunca fui'

Ambulante de Alagoas, Estado com pior índice de analfabetismo, lamenta ter desistido de estudar

CARLOS NEALDO , ESPECIAL PARA O ESTADO , MACEIÓ, O Estado de S.Paulo

28 Setembro 2013 | 02h03

Josinete Maria dos Santos tem 39 anos e nunca frequentou a escola, apesar de trabalhar como ambulante na frente de uma. Não sabe ler nem escrever e o máximo que aprendeu foi diferenciar as cédulas de real, essencial para o trabalho que executa diariamente há pelo menos uma década.

Natural de Limoeiro de Anadia, a 110 km de Maceió, ela lamenta não ter estudado, mas já se resignou com a situação. "Tinha de ser assim mesmo", conforma-se.

Para pegar o ônibus de casa para o trabalho, Josinete se guia pelos números dos coletivos. "Não sei ler o destino", diz. "Meu pai chegou a me matricular na escola, quando eu era criança, mas nunca fui."

Alagoas é o Estado que tem o maior índice de analfabetismo no País, de acordo com os dados do Pnad 2012:1 em cada 5 habitantes (21,8%) de 15 anos ou mais não sabe ler nem escrever no Estado.

Com medo de assaltos, muitos estudantes deixaram de frequentar as aulas em boa parte das escolas do Centro Educacional de Pesquisa Aplicada (Cepa), o maior complexo educacional da América Latina.

Por isso, muitos colégios extinguiram o período noturno, fazendo com que o lugar mais pareça uma cidade fantasma depois das 18h. É o caso da escola Estadual Maria José Loureiro, localizada na frente da Secretaria de Educação, que funciona no complexo. Desde 2010, não há mais aulas à noite. "Um dos motivos do sumiço dos alunos foi a violência", conta a diretora, Juliana Ferreira.

Trabalho braçal. José da Silva Santos, de 35 anos, deixou de estudar quando tinha 12. Na época, o motivo não foi a criminalidade. Como não era um aluno exemplar, foi transferido para uma casa de ressocialização para jovens em Palmeira dos Índios, no agreste alagoano. Voltou a Maceió aos 20 anos, porque a unidade não aceitava maiores de idade.

Ao chegar, não quis mais saber de estudar. Preferiu enfrentar o trabalho braçal. Seu sonho? "Ter uma vida digna e dar educação para meu filho, quando tiver um", planeja. "Eu me arrependo de não ter continuado os estudos, não quero que meu filho repita a minha história."

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