WERTHER SANTANA/ESTADÃO
WERTHER SANTANA/ESTADÃO

Funcionários do Metrô de SP fazem greve; linhas Azul, Vermelha, Verde e Prata foram afetadas

Metroviários decidiram por paralisação após negociações com o governo estadual não avançarem nas últimas semanas; nova audiência de mediação está marcada para as 15h desta quarta-feira

João Ker, Mariana Hallal, Renata Okumura e Victoria Netto, O Estado de S.Paulo

18 de maio de 2021 | 21h06
Atualizado 19 de maio de 2021 | 14h52

Os funcionários do Metrô de São Paulo estão em greve desde a 0h desta quarta-feira, 19. A operação foi afetada nas linhas 1 - Azul, 2 - Verde, 3 - Vermelha e 15 - Prata. As linhas 4 - Amarela e 5 - Lilás do Metrô, os trens da CPTM e os terminais de ônibus que funcionam junto às estações estão operando normalmente. O rodízio de veículos foi suspenso.

A previsão é que paralisação dure 24 horas. A decisão de entrar em greve foi tomada durante assembleia da categoria realizada na noite desta terça-feira. Eles alegam que estão com os salários congelados há dois anos, sem reajuste pela inflação. A perda salarial calculada até o momento é de cerca de 10%.

O Tribunal Regional do Trabalho (TRT) chamou o Companhia do Metropolitano de São Paulo (Metrô) e os trabalhadores para uma mediação às 15h desta quarta-feira. Ainda não se sabe o que será proposto à categoria. Depois da audiência, dependendo do resultado, o Sindicato dos Metroviários deve convocar uma nova assembleia para definir os rumos da greve.

Segundo o Metrô, três linhas voltaram a operar em alguns trechos às 6h55min com a frota e o itinerário bastante reduzidos. A linha 1 - Azul está funcionando entre as estações Ana Rosa e Luz, a 2 - Verde entre Alto do Ipiranga e Clínicas e a 3 - Vermelha entre Bresser Mooca e Santa Cecília. A linha 15 - Prata continua totalmente parada. O rodízio de veículos, que estava funcionando das 21h às 5h, foi suspenso na capital.

O Metrô também disse que o Plano de Atendimento entre Empresas de Transporte em Situação de Emergência (Paese) foi acionado e a partir das 4h desta quarta-feira 163 ônibus começaram a atender nas linhas afetadas. Às 8h25min a frota foi ampliada para 315 coletivos. As viagens são gratuitas. Para ver o itinerário clique aqui. Veja a distribuição dos ônibus:

Linha 1 Azul

  • Metrô Jabaquara - Praça da Sé (40 ônibus)
  • Metrô Tucuruvi - Praça do Correio (28 ônibus)
  • Metrô Santana - Praça do Correio (30 ônibus)

Linha 2 Verde

  • Metrô Vila Prudente – Metrô Ana Rosa (27 ônibus)
  • Metrô Ana Rosa – Metrô Vila Madalena (26 ônibus)

Linha 3 Vermelha

  • Itaquera - Pq. Dom Pedro II (40 ônibus)
  • Metrô Artur Alvim - Pq. Dom Pedro II (20 ônibus)
  • Metrô Vila Matilde - Pq. Dom Pedro II (20 ônibus)
  • Barra Funda - Praça da Sé (15 ônibus)

Linha 15 Prata (Monotrilho)

  • Apoio com a linha 5110 – Terminal São Mateus – Terminal Mercado (69 ônibus)

A SPTrans disse que pediu às concessionárias de ônibus para aumentarem o número de partidas em todos os horários. As empresas também devem manter em circulação toda a frota de veículos ao longo de toda a operação, nos horários de pico da manhã, entrepico e pico da tarde. Além disso, 25 linhas de ônibus que ligam os bairros às estações de metrô tiveram seus percursos prolongados até a região central, sendo 19 na linha 1 - Azul e seis na linha 3 - Vermelha. 

A Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM) informou que todas as sete linhas da empresa funcionam normalmente nesta quarta-feira, 19. Já nas estações em que há transferência para o Metrô, o acesso ocorre apenas nos locais onde há operação: Luz (Linhas 7-Rubi e 11-Coral) e Brás (Linhas 7-Rubi, 10-Turquesa, 11-Coral e 12-Safira). Nas demais estações onde há transferência, o acesso permanece fechado.

A Secretaria dos Transportes Metropolitanos (STM) conseguiu uma liminar da Justiça do Trabalho determinando que pelo menos 80% da frota opere durante os horários de pico (das 6h às 9h e das 16h às 19h) e 60% nos demais horários, sob pena de R$ 100 mil diários. O Sindicato do Metroviários disse ao Estadão que "a greve é geral" e não há previsão para o cumprimento da decisão. 

Em entrevista à rádio Eldorado, o secretário dos Transportes Metropolitanos de São Paulo, Alexandre Baldy, disse que apenas 15% dos funcionários do Metrô estão trabalhando. O percentual é composto por metroviários que não aderiram à greve e por integrantes do plano de contigência. "Aqueles que desrespeitarem a norma e a decisão judicial (que determina a operação de parte da frota) podem ser demitidos", falou. 

O sindicato da categoria afirma que até o fim desta manhã o Metrô não o procurou para tentar negociar um acordo. Os funcionários falam que, se houver uma proposta por parte da companhia, uma nova assembleia será convocada para discutir a possibilidade de encerrar a greve. Caso contrário, a paralisação seguirá até a meia-noite.

Reflexos

A Prefeitura de São Paulo informou que suspendeu o funcionamento dos postos volantes de vacinação contra a covid-19 localizados nas estações Butantã, República e Itaquera do Metrô. As vacinas estão disponíveis nas 468 Unidades Básicas de Saúde (UBS), nas AMAs/UBSs Integradas, nos Centros de Saúde (CS) e nos 17 Serviços de Atenção Especializada (SAEs). 

Acostumada a utilizar o Metrô por ser mais rápido, a jornalista Vanessa Barbosa, de 49 anos, que mora no Piqueri, na zona norte de São Paulo, foi de ônibus para o trabalho nesta quarta-feira. Por ser ainda 5 horas da manhã, o coletivo não estava cheio.

"Como sabia da greve, optei por vir de ônibus, mesmo gastando mais tempo. Quando passei na porta da estação Anhangabaú do Metrô, a que desço, estava com os portões fechados", disse Vanessa, que seguiu viagem de ônibus até o trabalho que fica no centro da cidade.

Diante da pandemia, ela demonstra preocupação com aglomerações que a greve dos metroviários pode provocar. "É arriscado porque os metroviários tomaram vacina, mas a maioria da população não. É um direito deles, mas poderia haver mais empatia neste momento", avalia a jornalista.

Já a gerente de Recursos Humanos Marcela Nishio, de 36 anos, saiu de casa nesta quarta-feira às 7 horas. De carro, gasta em média 1 hora da residência no Carrão, na zona leste, até o escritório do trabalho localizado no bairro Socorro, na zona sul da cidade. "Com a greve dos metroviários, o tempo no trânsito foi o dobro. Gastei cerca de duas horas. Muito trânsito, principalmente na Radial Leste", disse Marcela.

Para evitar transtornos na volta, a gerente de RH já se programou para sair mais cedo. "A volta deve ser ainda mais difícil. Vou sair 14h, geralmente saio às 18h", afirmou. 

Mesmo não indo de transporte público, Marcela critica a greve, que provoca aglomerações e mais risco de pessoas serem infectadas pelo novo coronavírus. "O fato é que não estão pensando na população que depende do meio de transporte para trabalhar nem se preocuparam em pensar que uma atitude como essa gera mais aglomeração. Vi muito pontos lotados, no caminho, lotação nos ônibus. Desespero em pensar que estamos crescendo na sobrecarga de internações  dos hospitais, que talvez tenha uma terceira onda e que São Paulo possa parar de novo. Essa paralisação veio em um péssimo momento. Com certeza irá contribuir para mais pessoas terem covid-19", disse. 

Para o gestor de serviços Fábio Alcides, de 45 anos, a manhã desta quarta-feira foi bastante caótica para chegar ao trabalho que fica na Vila Olímpia, na zona sul de São Paulo.

Mesmo com o frio, saiu de casa às 6 horas, uma hora e meia mais cedo que o habitual. "Foi terrível para chegar ao trabalho com a greve dos metroviários, prejudicando quem trabalha. Acho que teriam outras formas deles se manifestarem. Tive que mudar minha rotina. Saí uma hora e meia mais cedo para ir de trem. Também gastei dinheiro com aplicativo de transporte particular, em uma parte do trecho. Cheguei pouco antes das 9 horas, praticamente no horário que costumo chegar diariamente", disse Alcides.

O gestor de serviços costuma ir até a estação de Metrô Artur Alvim da linha 3 - Vermelha, da zona leste da capital, mas com a paralisação teve que ir até Corinthians-Itaquera, estação anterior, para utilizar o trem da CPTM. "Foi bem complicado. Superlotação e tudo desorganizado. Pessoas furando a fila. Situação inapropriada com a pandemia da covid-19. Com a entrada do Metrô fechada, muitas pessoas se deslocaram para o acesso aos trens da CPTM", lamentou Alcides, que espera que o funcionamento do Metrô volte ao normal até o fim do dia para que o retorno para casa seja mais tranquilo.

No Twitter, a hashtag #MetroSP ficou entre os assuntos mais comentados no início da manhã. Usuários estão usando a rede social para compartilhar informações sobre a greve e se dividem entre apoiar e reclamar do movimento.

Entenda a greve

Na terça-feira, 18, , uma reunião com representantes dos metroviários e do Tribunal Regional do Trabalho foi realizada com o objetivo de criar um acordo entre a categoria e o governo de São Paulo. Entretanto, nenhum representante da administração compareceu ao encontro. Dirigentes do sindicato classificaram a atitude como "um desrespeito à categoria".

"Não estamos pedindo aumento, estamos pedindo o reajuste inflacionário (do salário). É claro que, se vier alguma proposta de negociação, estamos dispostos a conversar e não paralisar o metrô.  Mas isso está nas mãos do governo e do Metrô", afirmou mais cedo Camila Lisboa, uma das coordenadoras do sindicato. 

Os dirigentes alegam que a categoria está há dois anos sem reajuste salarial e sem receber a Participação nos Resultados (PR) referentes aos anos de 2019 e 2020. Em comunicado oficial, a categoria afirma também que o Ministério Público do Trabalho (MPT) sugeriu uma proposta de acordo na segunda-feira, 17, que foi descartada pela Companhia do Metropolitano de São Paulo

Altino Prazeres, um dos dirigentes do sindicato, afirma que a última proposta apresentada à categoria só incluía o reajuste com base no IPC de maio de 2019 a abril de 2020 (2,61%), que também não foi pago, sem incluir o de 2020 para 2021 (7,79%). Ao mesmo tempo, ele alega que a empresa tentou reduzir os adicionais noturno e de férias, assim como a gratificação por tempo de serviço.

"Estamos dispostos a negociar em qualquer horário, mas é preciso de alguma proposta. Sem isso, não voltamos a trabalhar", afirma. Segundo Prazeres, a categoria "apenas soube por terceiros" que a ausência de algum representante da empresa ou do governo estadual na reunião desta tarde deu-se porque "não tinham mais nada para apresentar" nas negociações. 

Prazeres diz ainda que a categoria está disposta a "lançar um desafio" ao governo. "Se deixarem a catraca aberta (sem cobrar pela passagem), voltamos a trabalhar na mesma hora. Sempre dizem que quando entramos de greve, isso atrapalha o transporte público. Mas se o governo topar, a gente topa também."

Com a paralisação, paulistanos que usam o metrô para se locomover terão de recorrer a outros meios de transporte. Júlia Prestes dos Santos, 23, relata que terá dificuldade para chegar ao trabalho nesta quarta-feira. Ela é biomédica e atua na linha de frente realizando testes para covid em um laboratório em Moema. “Geralmente, pego três metrôs, incluindo a linha verde, e amanhã terei de pegar três ônibus, aumentando a duração da viagem em no mínimo uma hora”, diz. 

'Atitude desumana e intransigente'

Em nota, a Secretaria dos Transportes Metropolitanos afirma que o Metrô de São Paulo enviou uma proposta de acordo salarial "muito acima do que é praticado no mercado de trabalho e previsto na legislação brasileira", e que a empresa "manteve todos os serviços e seus empregados", mesmos com os prejuízos de R$ 1,7 bilhão no último ano e de mais de R$ 300 mil no primeiro trimestre de 2021.  "O sindicato certamente vive em uma realidade diferente do restante do País, que sofre com desemprego, perda de renda e fome", diz o texto, que classifica a greve como "inadmissível".  

A STM também afirma ter oferecido à categoria a manutenção de benefícios "muito além dos exigidos pela CLT", como o pagamento de vales refeição e alimentação, previdência suplementar, plano de saúde sem mensalidade, hora extra de 100%, adicional noturno de 35%, abono de férias em 60%, complementação salarial para afastados e auxílio creche/educação, dentre outros. 

"Reivindicar novos aumentos salariais e de benefícios, punindo a população com a paralisação do transporte público e deixando milhares de pessoas que cuidam de serviços essenciais, como saúde e segurança sem transporte é uma atitude desumana e intransigente", afirma o texto.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.