Metrô usa plano de contingência e abre metade das estações

Arquitetos, engenheiros, advogados e pessoal administrativo foram vender bilhetes, orientar passageiros e garantir operação

CAIO DO VALLE,LAURA MAIA DE CASTRO,EDISON VEIGA,MÔNICA REOLOM e RAFAEL ITALIANI, O Estado de S. Paulo

05 de junho de 2014 | 20h25

SÃO PAULO - Pranchetas, calculadoras e relatórios deixaram de ser instrumentos de trabalho para os funcionários do Metrô que trabalham nos escritórios com ar-condicionado nas Ruas Boa Vista, Libero Badaró e Augusta. Arquitetos, engenheiros, advogados e outros funcionários administrativos foram vender bilhetes e orientar passageiros nas estações. Três linhas ficaram parcialmente fechadas e 26 das 61 estações não abriram nesta quinta-feira, 5.

Eles fazem parte do plano de contingência acionado para tentar minimizar os impactos da greve. Para isso, passam periodicamente por treinamento com noções de fluxo de passageiros, bilheteria, equipamentos e gestão da sala de supervisão operacional (SSO) de cada estação. Apesar de não se identificar, muitos lamentaram e se diziam obrigados a ir trabalhar nas estações durante a greve da própria categoria a que pertencem.

Os trens foram conduzidos por supervisores de operação, que, segundo o Metrô, “são ex-operadores, instrutores, monitores, pessoas que dão treinamento e lidam com a operação” da rede. Na Linha 3, rodaram apenas as frotas G e H, mais recentes, com intervalos maiores. No início da tarde, as composições chegavam à plataforma das estações da Linha 3 a cada seis minutos, em média, um tempo quatro vezes maior do que em dias comuns, quando passam a cada minuto e meio.

De acordo com Altino de Melo Prazeres Júnior, presidente do sindicato dos metroviários, cerca de 200 funcionários trabalhavam na operação. “Mas há um problema de segurança, porque os vigilantes também estão 100% paralisados. Segurança, hoje, só se o Metrô colocar a polícia lá dentro.” E, de fato, a Polícia Militar estava presente, principalmente para evitar tentativas de pular as catracas. Vigilantes terceirizados da empresa Açoforte foram vistos na Estação Anhangabaú. Eles afirmaram ter começado a trabalhar ontem mesmo, para dar apoio ao serviço operacional.

Sem paciência. Os maiores problemas no entorno das estações, no entanto, envolveram os ônibus. Superlotados, os coletivos não deram conta de transportar os que foram prejudicados pela paralisação, principalmente em estações onde há terminais de transporte coletivo municipal e intermunicipal.

Esse era o caso, por exemplo do Terminal Jabaquara, na zona sul, que faz integração com a Linha 1-Azul e também recebe passageiros do ABC paulista. Houve até ação de clandestinos (mais informações nesta página). 

Por volta das 6 horas, passageiros que dependiam do metrô na Estação Barra Funda da Linha 3-Vermelha (que a exemplo da Estação Jabaquara tem interligação com o serviço rodoviário), tentavam arranjar outras alternativas para chegar ao trabalho. A assistente administrativa Dulce Regina, de 40 anos, que trabalha perto da Liberdade, na região central, juntou alguns colegas de trabalho para pegar um táxi.” Não tem ônibus para o meu serviço daqui. Estou esperando mais colegas para rachar”, disse.

Já a diarista Sônia Siqueira, de 56 anos, decidiu voltar para casa, na zona norte, porque não ia conseguir chegar na zona leste a tempo do expediente. “Essas situações estão acabando com a minha saúde. Uma hora vou ao ponto e não tem ônibus; no outro dia, não tem metrô. Assim fica difícil.” Sônia saiu de casa às 5h e, até as 7h, não tinha conseguido avisar a patroa. 

Ainda de manhã, no terminal da Estação Ana Rosa, da Linha 1-Azul, os passageiros que saíam do metrô tinham de enfrentar filas com até 200 pessoas para embarcar nos coletivos. Alguns desistiram, como a técnica Simone Cristina Napoleão, que caminhou cerca de 2,1 km até a Estação Santa Cruz. “Minha paciência esgotou.” 

À noite. No período noturno, notou-se menos confusão nas estações abertas. Às 18 horas, a Estação Bresser-Mooca, por exemplo, tinha em média de cinco pessoas em cada porta aguardando para entrar no trem. “A estação é sempre mais lotada”, disse a copeira Luciana Socorro Sousa, de 44 anos. 

Na Estação Brás, a situação não era diferente às 18h30. “Está todo mundo conseguindo entrar no primeiro trem”, comentou um funcionário da CPTM. 

Funcionário de uma joalheria na Sé, Israel Anselmo da Silva, de 49 anos, precisava levar uma encomenda a uma cliente perto da Estação Sacomã. De muletas - ele teve uma perna amputada após sofrer acidente, há dez anos -, Israel enfrentava dificuldade ontem. “Estou preocupado como vai ser para voltar para casa depois”, disse. Ele mora em Brasilândia, na zona norte.

Para o passageiro João Paulo Marcondes Lima, de 28 anos, a situação tranquila era reflexo das faltas ao trabalho. “Eu trabalho na contabilidade de uma empresa e só no meu departamento faltaram três. No resto da empresa, mais uns 10 ou 12.”

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