Metallica arrebata 100 mil fãs

Melhor show do primeiro fim de semana do Rock in Rio mostrou o quanto James Hetfield e cia. gostam do que fazem

JOTABÊ MEDEIROS, ROBERTO , NASCIMENTO / ENVIADOS RIO, O Estado de S.Paulo

27 de setembro de 2011 | 03h04

O avassalador show do Metallica, que encerrou o terceiro dia do Rock in Rio, no domingo, teve potencial para reverberar pela semana inteira na cabeça de cem mil fãs. A impressão que fica é de que até que última palheta se desgaste, até que a última baqueta seja quebrada, o Metallica fará apresentações demolidoras. A banda acaba de comemorar seus 30 anos (20 do homônimo disco de 91, que a transformou em febre mundial) em turnê com o Big 4 do trash metal (Slayer, Anthrax, Megadeth e Metallica). Todos os clássicos, de Master of Puppets a Sad But True, foram tocados com a energia obstinada que os consagraram, construindo uma apresentação que desponta como a melhor do festival até agora.

Como na turnê do Big 4, o Metallica tirou pedras pouco tocadas de seu baú, como o instrumental de dez minutos Orion, do disco Master of Puppets. Para os cabeludos especialistas, a performance da música foi um presente da banda aos que conhecem cada detalhe de seu passado.

Depois do pop friamente calculado que dominou o primeiro dia e das cópias de rap metal que dominaram o segundo, é um alívio a presença de uma banda cuja pegada é brutal e ao mesmo tempo sagaz. O peso demente, dez vezes mais barulhento, do Slipknot, que abriu para Lars Ulrich, James Hetfield, Robert Trujillo e Kirk Hammett, virou poeira diante da experiência da banda californiana. Um exemplo disso veio em um curto solo de contrabaixo feito por Trujillo.

Enquanto o baixista dava palmadas em seu instrumento, Lars Ulrich o acompanhava com uma pulsação arrastada, quase um funk, que foi se decompondo à medida em que Trujillo desafinou a corda mais grave de seu baixo. A banda acelerou em seguida, com Master of Puppets, um exemplo do entrosamento sem esforço que atinge depois de três décadas. Se existe elegância no heavy metal, o Metallica a tem de sobra. Os músicos gostam tanto de seus empregos que não conseguem ir embora. O bis teve três músicas e, por mais 15 minutos, a banda correu pelo palco, jogou palhetas à plateia, agradeceu a energia do público. Kirk Hammett, em um econômico número solo, tocou um trecho de Samba de Uma Nota Só. James Hetfield fez reverências a Lemmy Kilmister, padrinho do trash metal que tocara no início da noite. Na plateia, a devoção à banda unia o mar de camisas pretas. "Isso aí me ensinou a ser homem", contou com orgulho o tatuador Erol Tattoo, que veio de Belo Horizonte e já assistiu a todas as apresentações da banda no Brasil.

Sandman. O ápice do show é, logicamente, Enter Sandman. É de arrepiar o momento em que o dedilhado inicial, semelhante a Come As You Are, do Nirvana, ecoa pela arena como um presságio do que está por vir. Os compassos que sucedem são o mais vivo exemplo da virilidade trintona do Metallica.

Nas baladas metaleiras, como One e Nothing Else Matters, a banda deixa a desejar. São nelas que os sentimentos dos camisas pretas afloram, que os fazem lembrar de casa. São executadas com o mínimo de sentimentalismo pela banda, mas mesmo assim parecem piada perto do peso das outras músicas.

Slipknot. Um show do Slipknot pode ter o efeito de um exame de ressonância magnética - para o bem e para o mal. As batidas furiosas e cardíacas, as máscaras de Halloween do Inferno que seus integrantes usam, os vocais sísmicos, as dezenas de lança-chamas no palco. Ou o sujeito acorda ou ele aproveita o pesadelo e dorme de vez.

Infelizmente, foi essa última opção que o fã do metal pesado escolheu, quando o Slipknot lançou seu tsunami das trevas sobre o Rock in Rio. Milhares deixaram de lado o circo de horrores da banda, seu Bozo de necrotério e os Jasons, para tirar um cochilo na grama sintética, enquanto outros simplesmente viraram as costas para o palco e, sentados, comendo pizza ou sanduíches, assistiam ao show do telão.

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