Ayrton Vignola/AE
Ayrton Vignola/AE

Mestre Pará chefia 900 homens no Itaquerão

Após fazer metrô em Portugal e barragens no Chile, paraibano ajuda a realizar o sonho do Corinthians

BRUNO PAES MANSO, O Estado de S.Paulo

01 de janeiro de 2012 | 03h03

SÃO PAULO - No dia 30 de maio, um berro do mestre de obras Francisco Chagas Lopes, de 61 anos, conhecido como Mestre Pará, foi a primeira ação para que o estádio do Corinthians deixasse de ser uma lenda urbana em São Paulo. O grito autorizava que o primeiro caminhão descesse a ladeira do terreno de 200 mil metros quadrados em Itaquera, na zona leste. Finalmente começavam os trabalhos de terraplenagem da arena corintiana.

As promessas de um estádio do time alvinegro paulista eram antigas. Vinham dos anos 1960, feitas por ex-presidentes como Wadih Helu e Vicente Matheus. Para tirar o projeto do papel, meio século depois, Mestre Pará foi escalado pela empreiteira responsável pela obra, a Odebrecht, para coordenar o trabalho de mais de 900 homens. Representa para os trabalhadores no canteiro de obras o mesmo que o técnico corintiano Tite significa para os jogadores dentro de campo.

Assim como nos campeonatos de futebol, o funcionamento de uma obra do tamanho do Itaquerão exige peças que funcionem de maneira coordenada. Prazos não podem ser desrespeitados, já que o cronograma dos trabalhos é estreito. O estádio tem de ficar pronto até dezembro de 2013.

Para acertar o compasso, diariamente, Mestre Pará acompanha o ritmo de 20 a 30 frentes de diferentes tipos de atividades. As tarefas vão de concretagem de bloco a compactação das estruturas e fundações, que movimentam mais de 100 caminhões por dia. Mestre Pará acompanha cada uma dessas frentes andando para cima e para baixo, conversando com técnicos encarregados e tentando conferir os detalhes de tudo o que é feito por eles.

Funcionário da CBPO Engenharia desde 1974, empresa que depois se fundiu com a empreiteira Odebrecht, ele chegou a São Paulo aos 15 anos. Veio de Sousa, na Paraíba, para estudar e seguir carreira na construção civil. Morou em São Bernardo do Campo, chegou a cursar três anos de Engenharia Civil no Mackenzie, mas acabou pegando no batente desde cedo e abandonou a faculdade.

Como mestre de obras, já construiu três linhas de metrô em Lisboa, Portugal, nos anos 1990, além de ter colaborado com a construção central da Ponte Vasco da Gama, que passa sobre o Rio Tejo. Ainda fez duas barragens no Chile, usinas em rios no Paraná, São Paulo e Rio Grande do Sul, entre outros grandes projetos.

Os mais de 30 anos de experiência o levaram a ser chamado para comandar as obras do Itaquerão. Antes dos empregados pegarem no batente, ele ainda passou um mês calculando com engenheiros da empresa a mão de obra necessária para dar conta da obra. Apesar das paixões que envolvem qualquer coisa ligada ao Corinthians, o time do coração não pesou na escolha dos operários.

Sousa. Saber o time que torce, aliás, é um assunto que deixa constrangido o próprio mestre de obras do Itaquerão. Quando perguntado, Mestre Pará dá uma risada amarela e prefere desconversar. "Torço para o Sousa Esporte Clube, time da minha cidade na Paraíba, campeão estadual em 2009", diz. Mestre Pará afirma ser muito amigo do atual presidente do Corinthians, Andrés Sanchez. Se dissesse que torce para outro time, se sentiria como se estivesse cometendo uma traição ao patrão atual.

Apesar das grandes obras no currículo, Mestre Pará diz que a obra do estádio corintiano é diferente das demais, já que todos os holofotes estão voltados para o local. Alguns pedreiros são quase celebridades e dão entrevistas constantes a programas jornalísticos, sem contar as câmeras que mostram o andamento dos trabalhos 24 horas por dia na internet. Os funcionários ainda recebem ingressos para jogos importantes do Corinthians, ganham camisa do Timão e até assistem a shows musicais. Para a celebração deste fim de ano, quem cantou nos canteiros do Itaquerão foi o vereador Agnaldo Timóteo.

Em dezembro de 2013, quando o estádio estiver pronto, terão sido usados mais de 85 mil metros cúbicos de concreto, volume que seria suficiente para construir 50 edifícios de 10 andares. O estádio terá capacidade para 65 mil pessoas - 20 mil assentos são provisórios e serão retirados depois que a Copa acabar. Camarotes superluxo de até 370 m² e painéis que captam energia solar para abastecer o estádio estão entre os requintes previstos para o Itaquerão.

Os custos das obras estão estimados em R$ 820 milhões - R$ 420 milhões devem vir de incentivos fiscais oferecidos pela Prefeitura. O ritmo dos trabalhos está acelerado e há quem garanta que as obras acabem três meses antes do previsto. Das 3.200 estacas, 2.308 já foram colocadas. Mesmo se Mestre Pará não conseguir fiscalizar o prazo, torcedores corintianos, que organizam churrascadas quinzenais na frente do estádio, darão conta do recado.

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