Thiago Teixeira/AE-21/7/2011
Thiago Teixeira/AE-21/7/2011

Mesmo na mira da PM, ''ladeirão'' do Morumbi tem 1 assalto a cada 2 dias

Polícia Civil estima que 80% dos ataques a motoristas no bairro ocorrem nessa área; PMs já registraram 62 flagrantes somente neste ano

Diego Zanchetta, O Estado de S.Paulo

25 Julho 2011 | 00h00

Os assaltos no Morumbi, na zona sul de São Paulo, têm endereço e horário certos desde 2009. Só nos primeiros seis meses deste ano foram 93 ataques contra motoristas na Rua Doutor Francisco Thomaz de Carvalho, via que liga o bairro à Marginal do Pinheiros, mais conhecida como "ladeirão".

É nessa descida de mão dupla, perto do cruzamento de uma das ruas que dá acesso à Favela de Paraisópolis, que motoristas são atacados por grupos de menores de idade armados com pedras e velas de carros. É mais que um assalto a cada dois dias no mesmo local.

Nem a Operação Saturação, montada em maio pela Polícia Militar nas imediações de Paraisópolis e das Favelas do Jardim Colombo e do Real Parque, ajudou a reduzir os ataques. No primeiro semestre de 2010 foram 106 assaltos ou tentativas de furto no "ladeirão". A Polícia Civil já estima que 80% dos assaltos registrados contra motoristas no Morumbi ocorrem nessa via.

André Takahashi, chefe dos investigadores do 89.º Distrito Policial, onde são registrados os boletins de ocorrências dos ataques, diz que a ação dos marginais é tão rápida que as vítimas nunca conseguem reconhecer os autores. "São muitos menores de idade que atacam ao mesmo tempo, não dá para distinguir muito quem é quem. E mesmo quando o menor é preso, ele acaba saindo depois de três meses e volta a assaltar", conta.

Os assaltos têm ocorrido no início da manhã, entre 6h e 7h, ou no fim da tarde, entre 18h e 19h. Mas também há registros de ataques durante a madrugada e no horário de almoço. "Percebemos que eles aproveitam a troca de turno dos PMs que trabalham na região pela manhã", aponta o chefe dos investigadores do 89.º DP.

Caminho. O "ladeirão" é praticamente a única via que o motorista que está nas Avenidas Giovanni Gronchi e Morumbi pode usar para chegar à Marginal Pinheiros, sem ter de atravessar pelo meio de Paraisópolis. O caminho por ruas de terra pelo meio da favela, entre a Giovanni Gronchi e a Marginal do Pinheiros, tem 12 quilômetros, enquanto pelo "ladeirão" são percorridos 1.600 metros.

Mães do Morumbi que levam seus filhos para o Colégio Pio XII e moradores do bairro que vão fazer compras no Carrefour da Marginal do Pinheiros precisam usar quase que obrigatoriamente a Thomaz de Carvalho. Além de pedras e armas, grupos de menores que atacam motoristas, principalmente na mão em direção à Marginal do Pinheiros, estão usando velas de carro com saliva na ponta para quebrar o vidro.

Segundo o coronel José Luiz de Souza, do 16.º Batalhão da Polícia Militar, a PM tem atuado no local com 11 viaturas, seis de dia e cinco de noite. Um trailer ainda permanece na região 24 horas, juntamente com uma base comunitária. Só neste ano, eles conseguiram fazer 62 flagrantes. "O problema é que muitos são menores de idade e acabam voltando para o local. Só entre o Natal e o começo do ano, prendemos seis vezes o mesmo garoto", diz.

Solução. Para tentar encontrar uma solução para o problema, o coronel afirma que tem conversado com a Prefeitura para que sejam feitas mudanças no trânsito da região - para melhorar o fluxo e diminuir os riscos dos motoristas. Conta, para isso, com a ajuda do presidente do Conselho de Segurança do Portal do Morumbi, que tenta sugerir alternativas para melhorar o trânsito no entorno.

"A lombada eletrônica, que exige que o carro reduza a velocidade para 40 km/ hora, poderia ser revista. Também existem terrenos abandonados, com mato invadindo a rua, o que facilita a vida dos ladrões", diz o presidente do Conseg, Celso Neves Cavallini. /COLABOROU BRUNO PAES MANSO

O NOME DA RUA

DOUTOR FRANCISCO T. DE CARVALHO

BAIRRO DO MORUMBI ZONA SUL

Nasceu em Casa Branca, São Paulo, em 21 de setembro de 1860 e pertenceu a uma das mais numerosas e distintas famílias do oeste paulista. Formou-se em 2 de março de 1886 pela Faculdade de Direito de São Paulo como o primeiro casabranquense a receber grau numa escola superior. Ingressando na política foi, no ano seguinte, 1887, eleito deputado da Assembleia Provincial de São Paulo, pelo Partido Conservador.

Apesar de pertencer a uma família de fazendeiros, possuidora de numerosos escravos, alistou-se desassombradamente entre os abolicionistas. Proclamada a República, foi eleito deputado da Constituinte Paulista. Morreu em 1930.

PRESTE ATENÇÃO...

1. Fique alerta. Observe sempre o que ocorre no entorno, para evitar ataques com tijolos e outras armas. Verifique também se alguém atravessa a via de forma suspeita.

2.Nunca reaja. Caso a abordagem do criminoso seja inevitável, fique calmo e evite gestos bruscos. Se houver risco, jamais tente uma fuga.

DEPOIMENTOS

JOGUEI O CARRO EM CIMA

"Eu estava indo para o Brooklin. Era 18 de junho, por volta das 22 horas, e havia fechado o sinal na Giovanni Gronchi, então desci no "ladeirão" - era o primeiro da fila. Notei que os carros em sentido contrário estavam subindo bem rápido. Quando passei a lombada eletrônica, vi duas pessoas (dois moleques), saindo da frente de uma loja de toldos coloridos que tem ali, e indo na direção do meio da pista, fazendo gestos para que eu parasse o carro. Logo em seguida, os dois sacaram as armas (uma pistola cromada e outra preta) e pela lateral do carro já vinha mais uma pessoa (não vi se estava armada), mas como eu estava com minha mulher e minha filha, em um carro blindado, acelerei e joguei o carro em cima dos dois meninos. Eles correram para cima da calçada. Acho que se assustaram com minha reação e não atiraram, graças a Deus. Aconselho a todos que deem a volta pelo Estádio do Morumbi para chegar à Marginal, pois com toda a certeza passar pelo "ladeirão" é arriscar ser assaltado. A polícia sabe o que ocorre naquela região e não toma nenhuma atitude. E nós temos de andar enjaulados dentro de carros blindados para nos defender. Isso é um absurdo, uma tremenda troca de valores, pois a pessoa honesta que paga seus impostos tem de ficar trancafiada para não correr o risco de ser assaltada." /GILVAN BURNEO, COMERCIANTE, 37 ANOS

AGACHEI NO BANCO E SEGUI

"Fui atacado em fevereiro, quando estava voltando para o Morumbi da Avenida Santo Amaro, por volta das 22 horas. Infelizmente não tinha um blindado, mas como eles foram para o lado do carro, e eu não cheguei a parar, me agachei e continuei em frente na pista. Nunca mais passei por lá. Prefiro ir pela Ponte João Dias ou mesmo pela Ponte Cidade Jardim." /ANDERSON AMATO

QUEBRARAM MEU VIDRO

"Há duas semanas, eu quase fui assaltada na Giovanni Gronchi, exatamente no cruzamento com a Rua Francisco Thomaz de Carvalho. Parei no semáforo, dois garotos de aproximadamente 12 anos quebraram meu vidro e tentaram pegar minha bolsa. Só não conseguiram porque eu fugi, passando o sinal vermelho. Foi horrível! Minha filha de 8 anos estava junto. Ela ficou super assustada e não parava de chorar." / M.Z., DE 39 ANOS

FUGA EM MEIO A TIJOLADAS

"Passei por essa situação (de me ver sob risco de assalto) em 31 de maio deste ano. Passava pela região do chamado "ladeirão" do bairro do Morumbi, quando oito homens me cercaram. Consegui fugir, subindo no espaço da calçada, mas levando tijoladas." /LISANIAS MOURA

ATERRORIZADA POR MOTOS

"Em novembro do ano passado, eu fui assaltada em uma rua próxima da Avenida Giovanni Gronchi, na zona sul da capital. Eram dois homens em uma moto, e estavam armados. Pediram para eu parar o carro e roubaram minha bolsa. Fui na delegacia dar queixa. Mas é obvio que não consegui meus pertences de volta. Fico indignada com tanta insegurança no bairro. Agora sempre fico apavorada quando paro nos semáforos, olhando para todos os lados. Até quando vamos ficar a mercê desses bandidos?"/ J.Z., DE 40 ANOS

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.