Mesas abordam 'falência' na atividade política

Para filósofo, fim da polarização entre partidos leva a um novo eixo político no qual extremos ganham força

UBIRATAN BRASIL , ENVIADO ESPECIAL , PARATY, O Estado de S.Paulo

07 de julho de 2013 | 02h04

A discussão sobre os atuais movimentos sociais no Brasil e no mundo inspirou as duas mesas extras, realizadas na noite de ontem, em Paraty, que estiveram lotadas. A primeira reuniu o historiador da arte britânico T. J. Clark e os pensadores brasileiros Vladimir Safatle e Tales Ab'Saber. Em seguida, começou o encontro entre o economista André Lara Resende e o pesquisador Marcos Nobre. Todos analisaram o que veem como a aparente falência do modo de se fazer política no Brasil.

Para Safatle, o que se vive hoje, com a discussão levada às ruas, é um retorno natural da política brasileira. "Na verdade, os últimos 20 anos representaram um hiato na nossa História, e, como resultado, tivemos a retirada da política institucionalizada", disse. "Estamos vendo um novo eixo da política. Antes, eram dois consórcios, PSDB e PT, que se organizavam com outros grupos partidários. Enquanto o PT acreditava ter a hegemonia das ruas, o PSDB reunia-se em torno da burguesia."

Segundo ele, como esses partidos não mais representam completamente as expectativas que neles foram depositadas, os extremos passaram a ter mais força. "Um novo ciclo de embates e um novo modelo de fazer política surgiram e com vínculos com outras partes do mundo, como Egito e Tunísia."

A análise foi confirmada por Nobre, para quem o povo vem retomar o poder que lhe foi usurpado durante o regime militar. "Temos hoje um sistema político que não consegue mais representar a sociedade." Para Lara Resende, há a percepção de que o Estado é ilegítimo, por arrecadar fundos por meio de impostos que não se transformam em benefícios. "E há ainda o contraponto de o Estado vender a imagem de que tudo está em ordem", acrescentou.

Ab'Saber, por sua vez, considera que a ação da polícia revelou sua forma de agir fora da lei. "Foi preciso acontecer algo como os confrontos para que a polícia recuasse e o movimento crescesse.

Já Clark exibiu cenas de confrontos em cidades brasileiras e analisou a crítica contra os altos custos na reforma e construção de estádios para a Copa do Mundo de 2014, evidenciada durante a Copa das Confederações. "Não é o culto ao futebol que está sendo contestado, mas a igreja do futebol, onde catedrais cada vez maiores vem sendo construídas", disse. "O avanço da tecnologia, a sociedade do espetáculo e a onipresença da produção de imagens comprovam que o que importa politicamente é persuadir. E isso remete aos anos 1960, quando o poder da imagem era sinal da impotência de certas formas de vida."

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