Mercado ruma para o leste e cria ''Granjas'' e ''Alphavilles''

Um condomínio fechado chegou a vender 940 lotes em apenas 48h em Mogi das Cruzes, a 60 km da capital

Márcio Pinho e Nataly Costa, O Estado de S.Paulo

03 de abril de 2011 | 00h00

Com os originais já saturados por causa do trânsito, São Paulo deu seu jeito de criar outros Alphavilles e Granjas Viana. Lugares como Suzano e Mogi das Cruzes, apesar de um pouco fora das franjas da cidade, também não estão tão longe que não possam ser as novas cidades-dormitório dos paulistanos. As vantagens listadas pelos moradores vão desde segurança e qualidade de vida até menos tempo perdido no trânsito.

A 50 km e a 60 km de distância da capital, respectivamente, grande parte dos paulistanos que migram para Suzano e Mogi tem negócios na zona leste - para eles, é mais fácil pegar a estrada para chegar ao Tatuapé que enfrentar o trânsito constante das vias expressas de São Paulo. "Se a Marginal está ruim, dá para desviar pela Vila Maria, por São Miguel ou Aricanduva. Para o ABC, há a Jacu-Pêssego", diz Walter Júnior, presidente de um dos condomínios de luxo em Mogi das Cruzes, o Aruã.

A corrida por um terreno naquelas bandas chegou a tal ponto que um condomínio fechado em César de Souza, distrito de Mogi, chegou a vender 940 lotes em apenas 48 horas, logo no lançamento. "A procura de imóveis aqui é uma loucura", conta o corretor Maurício Pereira. As regiões mais cobiçadas, além do Aruã e do César de Souza, são Nova Mogilar e Vila Oliveira.

Das 1.800 famílias que vivem no Aruã, 85% vieram de São Paulo, garante Júnior. O condomínio ainda tem atualmente 280 casas em construção. "Vim por causa de segurança e qualidade de vida para meus filhos. Como não preciso ir a São Paulo todo dia, não enfrento trânsito", afirma o advogado Gilberto Faria, de 49 anos, recém-chegado a Mogi - mudou-se há menos de um mês.

Mesmo com padrão de luxo, o preço de um terreno ou uma casa nos residenciais ainda compensa quando comparado à capital. Em Mogi, o metro quadrado de um terreno em um condomínio pode custar por volta de R$ 400; o de uma casa, R$ 3 mil. "No Ibirapuera, onde trabalho, esse valor varia entre R$ 7 mil e R$ 8,5 mil. É inviável", conta o empresário Emílio Maganha Neto, de 43 anos, que também vive em um residencial de Mogi.

"Em São Paulo morava de aluguel. Aqui, consegui comprar um terreno e construir a casa", conta o comerciante Paulo Leite Porto, de 34 anos, há 40 dias em Suzano. Para chegar ao trabalho, no Brás, leva menos de uma hora e ainda tem a opção do trem.

Infraestrutura. Os problemas de infraestrutura são dores de cabeça que quem muda para essas cidades têm de enfrentar. Mogi das Cruzes, por exemplo, ainda convive hoje com cancelas que fecham o caminho dos automóveis para a passagem do trem. As ruas do centro são bastante estreitas e têm congestionamento.

Para o professor de Urbanismo da Universidade de Mogi das Cruzes Elvis José Vieira, há uma incompatibilidade entre os governos municipais e a especulação imobiliária, que não atende o direcionamento que as prefeituras querem dar às cidades. As áreas buscadas pelas construtoras geralmente são mais baratas, a serem exploradas, e não têm serviços básicos como água, luz e rede de esgoto suficiente para a nova demanda. "Nesse sentido, a infraestrutura não tem acompanhado o crescimento", avalia.

Um dos problemas da região, por exemplo, é o fato de Suzano ter apenas dois hospitais, o que frequentemente leva os moradores a buscar socorro em Mogi das Cruzes. Também faltam creches. O prefeito de Suzano, Marcelo Cândido (PT), afirma que há déficit histórico de serviços. "Estamos tentando acelerar. Em 2005, apenas 35% das ruas eram asfaltadas. Hoje, são 65%."

Em Mogi das Cruzes, o prefeito Marco Bertaiolli (DEM) afirma que os cofres municipais não conseguem fazer investimentos em infraestrutura na mesma velocidade do crescimento e são necessárias verbas estadual e federal. Segundo Bertaiolli, a prefeitura tem um grupo de estudo analisando o crescimento imobiliário e pensando em compensações.

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