'Menino-passarinho' intriga moradores de Higienópolis

Há uma semana, adolescente vive sobre uma árvore no bairro da região central de SP; abordagem da PM fez garoto desmontar abrigo

Vivian Codogno, O Estado de S. Paulo

01 Agosto 2014 | 22h33

SÃO PAULO - A Rua Veiga Filho, em Higienópolis, bairro nobre da região central de São Paulo, recebeu nesta semana um morador inusitado. Há seis dias, Pedro (nome fictício) se abrigou em cima de uma árvore na altura do número 105 e passou a fazer parte da paisagem de quem transita por aquela rua. Com 16 anos, negro, sem documentos e sem família, o garoto relata a epopeia de como saiu de Cachoeiras de Macacu, município próximo a Nova Friburgo (RJ), e chegou até seu novo ninho depois da morte do pai e do sumiço da mãe. Ele conta que se escondeu entre a carga de um caminhão-cegonha e aportou em São Paulo.

Na bagagem, Pedro carrega uma almofada, um edredon e uma sacola com uma blusa e uma calça jeans. Também leva a "Enciclopédia prática da mágica e do ilusionismo", que diz não se lembrar onde encontrou. Seu sonho é ser mágico, "daqueles de baralho", mas como não sabe ler, espera alguém que possa lhe ensinar alguns truques. 

A casa não era mais que alguns tapumes apoiados nos galhos, que serviam como base para que ele pudesse se deitar na hora de dormir. Esse abrigo precisou ser desmontado depois de uma abordagem da Polícia Militar, acionada pela terceira vez por alguns moradores do Edifício Santa Emília, prédio logo à frente da árvore. Os policiais aconselharam o garoto a retirar suas coisas e sair daquela rua. Como se recusou, foi agredido por moradores do bairro que assistiam a cena. Fugiu e só retornou no dia seguinte, bastante assustado.

O aposentado Luis Inácio Pio de Almeida, condômino do Edifício Santa Emília, incomoda-se com a presença de Pedro nos arredores. Para ele, além de correr risco ao viver sobre uma árvore, o garoto pode ser uma ameaça aos moradores. "Ele ainda não teve uma atitude violenta, mas não o conhecemos. Já sugeri até que derrubem a árvore para ver se ele vai embora, pois ele se instalou aqui e não sai mais", esbraveja de dentro da grade do prédio.

A síndica do condomínio, Maria Nilza Dupas, tenta outras maneiras para conseguir com órgãos públicos um local adequado para Pedro. Ao notar o movimento causado pela reportagem, Maria Nilza se aproxima. "Não é apenas a nós que esse caso está atingindo.Tem muito movimento aqui por causa do shopping. Não existe preconceito em relação a ele, o problema é a atitude que ele tem. A rua é uma sedução para estas pessoas", diz a síndica. Para ela, o garoto não é "caso de Febem (atual Fundação Casa)", mas é preciso encontrar uma solução em abrigos para moradores em situação de rua.

Adoção. A fama de Pedro se espalhou tão rápido pelos arredores que as especulações sobre a sua história não demoraram a aparecer. Alguns dizem que já o ouviram falar em francês e em espanhol, outros acreditavam, no início, tratar-se de um haitiano desabrigado. E com as histórias que conta, o menino passarinho colabora com sua existência lendária. "De onde eu venho todo mundo vive em árvores, moça. E eu já morei em outra dessas no fim da rua. Escolhi esta aqui porque testei e nela foi mais fácil colocar minha coisas. Mas depois do que aconteceu ontem não subo mais aí não", conta Pedro com a sobrancelha franzida, esbanjando desconfiança. 

"Eu quero ser adotado, moça. Quero ser filho da dona Dulce", conta o garoto logo após acordar, ainda coberto pelo edredon rasgado, escondendo o rosto da claridade do sol. Pedro se refere a outra moradora do Santa Emília, a aposentada Dulce Santucci, que logo chega oferecendo uma maçã para ele. "Se eu não estivesse com 80 anos, adotaria mesmo. Como meu filho morreu, até pensei em dar os documentos dele para o Pedro, já que ele não tem, mas não daria certo, né? Uma pena, meu sobrenome é tão bonito". 

Outra 'mãe postiça' que Pedro conquistou desde que chegou à Rua Veiga Filho é a psicóloga e terapeuta Luciana Sodré Cardoso. Também moradora do número 105 da rua, ela se sensibilizou com a história do garoto e tem tentado, a cada dia, estabelecer um vínculo de confiança com Pedro, para que ele possa ser encaminhado para um órgão de proteção. 

"Ele é uma criança, e sempre se apresentou muito honesto, muito amoroso. As violências que ele tem sofrido nos últimos dias podem o ter deixado um pouco arredio, mas ele é sempre muito alegre. Se continuar sendo maltratado, pode virar um delinquente", defende Luciana. "Ele não quer sair daqui porque se sente protegido. Eu tenho sido um apoio para ele. Eu olho nos olhos, toco, o trato como uma pessoa."

Para a terapeuta, é importante que a autonomia de Pedro seja preservada e que ele seja convencido a sair da árvore, não removido à força. Por isso, Luciana tem chamado amigos com algum envolvimento em movimentos sociais para se aproximar do menino, além de acionar diariamente ONGs de apoio a crianças em situação de rua. Porém, a forma legal de tirar Pedro da rua é acionando o Conselho Tutelar e, de acordo com Luciana, suas solicitações em relação ao órgão não foram atendidas.

Enquanto isso, o garoto afirma que gostou daquela rua e vai ficar por ali. "Essa rua é bonita, gostei daqui. Mas quero uma família, e uma casa, não importa como seja." Durante a conversa, Pedro ganhou diversas coisas de pessoas que passavam na região: metade de um sanduíche, suco de frutas, algumas esfirras e duas garrafas de refrigerante pela metade. Ao se despedir, ele estica o braço, entrega uma das garrafas e diz: "pode levar essa, moça, uma só já dá pra mim". 

Trâmites. Consultada, a Polícia Militar não quis dar esclarecimentos sobre a abordagem da noite de quinta-feira, que levou Pedro a abandonar sua casa na árvore. O Conselho Tutelar não soube informar sobre o andamento das solicitações de Luciana e informou que a forma mais eficiente de chegar a um menor em situação de rua é acionando o Centro de Referência Especializado de Assistência Social para População em Situação de Rua (Creas-Pop). Indagado, o órgão afirma que procurou por Pedro durante a tarde mas não o encontrou no endereço indicado. 

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