Menino liga para o 190 ao ser deixado pela mãe

Garoto, de 12 anos, disse que apanhou e ficou preso sem comida com os irmãos menores; ontem, juiz decidiu enviar os três, provisoriamente, a um abrigo

Elvis Pereira, O Estado de S.Paulo

06 de setembro de 2011 | 00h00

Um menino de 12 anos chamou a polícia, após ser deixado só em casa com os irmãos, um menino de 2 anos e um bebê de 5 meses. O caso aconteceu no sábado em Itapecerica da Serra, município da Grande São Paulo. Após dois dias de polêmicas e idas e vindas ao DP, decidiu-se ontem retirar a guarda dos pais e provisoriamente enviar todas as crianças para um abrigo.

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No sábado, o garoto ligou para o telefone 190 e disse que a mãe havia batido nele, saído de casa e trancado a porta. O menino estava aflito porque a irmã mais nova tinha fome e não havia leite. O pai das crianças também havia saído para trabalhar.

Ação policial. Dois policiais militares, após a denúncia feita ao centro de operações, seguiram diretamente para a casa da família, no bairro Jardim Jacira. A porta do imóvel estava fechada. "Chamamos o menino e ele respondeu que estava trancado na residência", afirmou o cabo Luis Antonio Pires.

Os PMs decidiram arrombar a porta e encontraram a menina de 5 meses em um carrinho de bebê. "Ela estava com a roupa suja com fezes e urina", acrescentou o policial. O Conselho Tutelar acompanhou a ação.

Segundo Pires, o garoto relatou que a mãe, Helena, de 37 anos, costuma deixá-los em casa sozinhos. Além disso, o agredia e teria jogado água quente em sua barriga.

Guarda. As crianças foram levadas para a delegacia de Itapecerica onde, mais tarde, os pais foram buscá-los. A mãe foi autuada por abandono de incapaz, maus-tratos e violência doméstica. Os meninos foram entregues provisoriamente ao pai, Edilson, de 37 anos.

Na noite de ontem, o juiz Gabriel Sornani, de Itapecerica, decidiu enviar para o abrigo o garoto de 12 anos e os irmãos. Ele alegou ter tomado a decisão por precaução e para ter mais tempo para apurar a denúncia. Os pais não quiseram comentar a sentença.

"Não tivemos tempo hábil para verificar outra solução. As crianças precisam comer e dormir", justificou a promotora Camila Moura da Silva França Carvalho. Segundo ela, serão necessárias mais investigações para saber se o episódio de sábado foi um fato isolado ou não.

DIÁLOGO

Atendente do 190: Emergência, bom dia.

Menino: Bom dia, moço. É que a minha mãe me deixou aqui preso com meus irmãos, quase sempre ela faz isso. Aí a minha irmã está sem leite. Tá sem alimento. O que eu poderia fazer?

Atendente: Ela foi para onde?

Menino: Não sei. Ela tem ciúme do meu pai... Aí, eu acho que ela tem depressão, ela "teve" internada...

Atendente: Você tem quantos anos?

Menino: 12

Atendente: E a sua irmã está com quantos anos?

Menino: A minha irmã tem 5 meses.

Atendente: Hã?

Menino: Tem 5 meses.

Atendente: E você está com ela na residência?

Menino: Sim, preso.

Atendente: Todo dia faz isso?

Menino: Todo sábado, todo domingo. Ela também me bate, me deixa com lesões. Já queimou a minha mão, a barriga.

Atendente: Você não tem como abrir a porta aí?

Menino: Só se eu arrebentar a porta.

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