Meninas fazem arrastões na Vila Mariana

Bando formado por cerca de 15 crianças e adolescentes, a maioria meninas, está promovendo arrastões e aterrorizando o comércio da Vila Mariana, na zona sul da capital.

Luísa Alcalde, Jornal da Tarde

01 de agosto de 2011 | 22h47

 

 

Elas se reúnem na parte externa da Estação Ana Rosa do Metrô, de onde saem em grupo atacando lojas, além de roubar e ameaçar pedestres na altura dos números 700 e 800 da Avenida Domingos de Moraes, onde há concentração de estabelecimentos comerciais.

 

 

Na última reunião do Conselho de Segurança (Conseg) da Vila Mariana, ocorrida na terça-feira, dia 26, o capitão Flávio Baptista, comandante da 2ª Companhia, do 12º Batalhão da Polícia Militar disse que o grupo já foi detido em flagrante pelo menos entre 15 e 20 vezes. De acordo com o presidente do Conseg, Douglas Melhem Junior, essas detenções ocorreram de outubro para cá. “Só na semana passada foram três vezes”, completou o policial.

 

 

De acordo com o capitão, elas simulam portar armas embaixo das roupas, embora nada tenha sido encontrado até agora.  “Estamos fazendo o que é legal, mas como elas têm 11, no máximo 12 anos, são encaminhadas ao Conselho Tutelar, onde é facultada a vontade ou não de permanecerem nos abrigos. Dali a meia hora estão nas ruas aprontando novamente”, disse o capitão.

 

 

Procurado pela reportagem, por meio da assessoria de imprensa da PM, o Comando de Policiamento Metropolitano não respondeu.

 

 

“De um mês para cá piorou muito. Elas voltaram com tudo. Tem ocorrido de 15 a 20 arrastões por semana”, afirma o segurança da Galeria Paraíso, que abriga dezenas de lojas, Michel da Cosa Massi.

 

 

As garotas são descritas pelos comerciantes como extremamente agressivas e desafiadoras. “Em uma das prisões, elas unharam um policial e ameaçaram tirar a roupa na delegacia para simular constrangimento”, conta o presidente do Conseg local, Douglas Melhem Junior.

 

 

A comerciante Adriana Augusta Fidalgo Santos, dona da loja de roupas infantis Sapo Perereca, confirma. “Na segunda-feira passada saí correndo atrás de uma delas que havia pego um pijama da minha prateleira. Ela tentou me morder várias vezes e me chutava”, conta a empresária.

 

 

Na região, boa parte do comércio já foi invadido e sofreu arrastão. Relatos de furtos e roubos são frequentes. A gerente da Raclaudia Modas disse que os lojistas avisam uns aos outros da presença do bando. “Não pode deixar entrar na loja senão elas barbarizam mesmo. Cada uma vai para um lado e pegam o que podem guardar dentro da roupa. São rápidas”, conta.

 

 

O que diz o  Conselho Tutelar

 

 

A maioria das crianças e adolescentes que fazem arrastões na Vila Mariana saem de Cidade Tiradentes ou São Mateus, na zona leste, segundo o Conselho Tutelar. O bando entra em supermercados, shoppings e atacam também estudantes na saída de colégios, levando mochilas e celulares. As ações ocorrem durante o período da tarde.

 

 

Esses arrastões não são novidade na Vila Mariana. De acordo com o Conselho Tutelar da região, há três anos cerca de 30 crianças praticam atos infracionais na área que vai da Estação Paraíso à Estação Santa Cruz do Metrô. Os grupos se alternam e há épocas em que os delitos aumentam, como agora.

 

 

Quando detidas em flagrante pela Polícia Militar da região e encaminhadas ao 36 Distrito Policial (Paraíso), elas alegam ter menos de 12 anos (idade não passível de receber medidas socioeducativas pelos atos cometidos) e, por isso, são enviadas ao Conselho Tutelar.

 

 

Como não portam documentos e se recusam a se identificar, não é possível localizar os pais ou responsáveis e, por isso, são consideradas crianças em situação de rua. Uma vez detidas em flagrante são encaminhadas a abrigos municipais, de onde fogem e voltam para as ruas.

 

 

“Já tentamos inúmeros vezes saber o endereço e o nome correto delas para sabermos exatamente quantos anos elas tem. Mas elas mentem, inventam, sonegam essas informações”, conta uma conselheira tutelar que pediu anonimato.

 

 

Essas tentativas de identificação e encaminhamentos estão documentados. O delegado assistente do 36 DP, Sugui Kendi, afirmou que só pode encaminhar para a Fundação Casa adolescentes que tenham cometido ato infracional com 12 anos completos. “Abaixo dessa idade é criança e será encaminhada para o Conselho Tutelar”, reafirma.

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