Isabella Britto/ONG Ciranda para o Amanhã
Isabella Britto/ONG Ciranda para o Amanhã

Menina torturada e escravizada pela mãe e pelo padrasto passa por cirurgia

Procedimento foi bem-sucedido e serviu para tirar queloides que se formaram após sessões de maus-tratos

Alexandre Hisayasu, O Estado de S.Paulo

03 Maio 2017 | 03h00

SÃO PAULO - A menina M.J., de 10 anos, passou por cirurgia na manhã desta terça-feira, 2, para retirar queloides que se fomaram no seu corpo. O procedimento foi considerado bem-sucedido pelos médicos e ela já teve alta do hospital. A garota ficou com as marcas por causa das várias sessões de tortura a que foi submetida, na qual a mãe e o padrasto apertavam um alicate em várias parte do seu corpo, inclusive na vagina, como forma de castigo. Os dois foram condenados pela Justiça.

O caso foi descoberto, em agosto do ano passado, quando a menina conseguiu fugir de casa e foi acolhida por duas mulheres que passavam na rua, na região do Butantã, na zona oeste. M.J. foi levada até um hospital com ferimentos graves por todo corpo. De lá, seguiu direto para um abrigo, onde está até hoje junto com dois irmãos mais novos. Desde então, foi "adotada" pela Organização Não Governamental (ONG) Ciranda para o Amanhã, que assiste 10 abrigos e atende 350 crianças.

"A cirurgia foi um sucesso. Começou às 6 horas e durou cerca de uma hora", contou Isabella Brito, uma das fundadoras da ONG. Segundo ela, a menina ainda vai passar por 10 sessões de betaterapia, que consiste na utilização de ondas magnéticas para evitar que as queloides se formem novamente. Esta foi a terceira e última cirurgia para retirar as marcas.

Graças à solidariedade de profissionais que se sensibilizaram com o drama da menina, M.J. recebe tratamento dentário, médico e psicológico. Nos finais de semana, é "disputada" pelas tias da ONG, que a levam para passeios em parques, sessões de cinema e até "dia de princesa" em salões de beleza. Os irmãos também a acompanham.

O Estado revelou o caso nesta terça. A mãe da menina, Vanessa de Jesus Nascimento, foi condenada a 48 anos de prisão, e o padrasto Adriano dos Santos, 33 anos, por crimes de redução à trabalho análoga à escravidão, lesão corporal gravíssima e tortura. Em depoimento, a menina contou que "apanhava todo dia", porque a mãe e o padrasto achavam que ela não limpava a casa direito.

Ela narrou que era obrigada a dormir em pé quando “a louça não ficava limpa”. A mãe, disse a menina, amarrava os seus braços e suas pernas de modo que ela não conseguia se mexer. Outra vezes, dormia no chão e até fora de casa, onde chegou a presenciar ratos passando ao redor. Por várias vezes, ficou sem refeição. 

A menina contou que num certo dia não conseguiu colocar a capa no sofá e foi segurada pelo padrasto enquanto a mãe lhe arrancava três unhas da mão com um alicate de jardineiro. Na sequência, Vanessa furou a sola do pé da filha com a ferramenta. E a tortura continuou.

Segundo depoimento, a mãe a amarrou com um fio e apertou com o alicate sua barriga várias vezes, causando ferimentos. Por último, os dois – segundo o MPE – se revezaram apertando o alicate na vagina de M.J. Em outra ocasião, a mãe cortou a língua da menina com a ferramenta e obrigou que ela limpasse o sangue que jorrou na parede.

Na sentença que condenou o casal, a juíza Tatiane Moreira Lima, da Vara de Violência Doméstica do Butantã, afirmou que “casos como o presente mostram a verdadeira desumanização de dois seres, que se despem dos papéis de guardiões para encarnar os papéis de déspotas e tiranos, senhores da vida e da morte, da dor e do pavor de uma pobre criança indefesa”. “Diante do exposto, a condenação se mostra medida inafastável.”

Os advogados do casal informaram que irão recorrer da sentença.

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