NILTON FUKUDA/ESTADÃO
NILTON FUKUDA/ESTADÃO

Menina baleada é movida quatro vezes de hospitais a espera de cirurgia

Após ter sido deslocada entre os Hospitais João 23 e do Tatuapé, ambos na zona leste de São Paulo, estado de saúde da criança de 6 anos é estável

Juliana Diógenes e Isabela Palhares, O Estado de S.Paulo

02 Março 2017 | 11h00

SÃO PAULO - Ana Victoria Rodrigues Silva, de 6 anos, brincava na calçada na frente de casa em uma favela da Vila Prudente, na zona leste de São Paulo, na noite de quarta-feira, 1º, quando foi baleada nas costas. Após 15 horas de espera e de ter sido deslocada quatro vezes para dois hospitais, os médicos fizeram a cirurgia na menina, que não corre risco de morte. 

Gilson Silva, de 27 anos, pai de Ana Victoria, disse que a filha correu para casa quando viu policiais militares na rua. Ela estava na garagem e foi atingida pelo projétil no lado esquerdo das costas. A menina foi socorrida pela avó, que pediu ajuda aos PMs. Mas, segundo o pai, os agentes disseram que não poderiam prestar socorro. “Os vizinhos é que tiveram de ajudar. Os policiais se negaram a socorrer minha filha.” 

Segundo a Secretaria da Segurança Pública (SSP), os PMs faziam patrulhamento quando um homem atirou contra eles. O tiro teria “ricocheteado” e atingido a criança. Os agentes também dizem que tentaram socorrer a menina, a entregaram à avó e pediram ajuda. Mas, diz a pasta, foram agredidos por moradores, que atiraram objetos. Um inquérito foi aberto para apurar de onde partiu a bala.

A garota foi internada no Hospital João XXIII, na Mooca, na noite de quarta. Na madrugada, foi levada ao Hospital Municipal de Tatuapé, na zona leste, para fazer limpeza cirúrgica. A Secretaria de Saúde explicou que os deslocamentos são um procedimento normal. Em seguida, voltou ao João XXIII.

Na manhã desta quinta, ela foi novamente levada ao Hospital do Tatuapé, onde passou por cirurgia. “Não foi um procedimento normal. Mesmo sendo urgência, disseram que não havia vaga”, afirmou Silva.

Segundo ele, no João XXIII foi constatado que o cabelo da menina se enrolou no projétil e entrou no corpo - o que poderia infeccionar. Os médicos disseram não poder fazer a remoção do cabelo e, por isso, a encaminharam para o Tatuapé. 

Segundo Silva, a falha na comunicação causou apreensão na família. “Foram horas sem saber quando iriam fazer o procedimento. Se eu não tivesse procurado a imprensa, só Deus sabe quando minha filha teria passado por cirurgia”, disse.

Às 11 horas desta quinta, Ana Victoria passou pelo procedimento, que retirou fios de cabelo, mas deixou o projétil no corpo. Retirar a bala seria arriscado. “(Os médicos) Disseram que ela pode viver com a bala ali o resto da vida e nunca sentir nada ou que, conforme crescer, o corpo pode expelir o objeto, mas não vai correr risco ou sentir dor”, afirmou Silva.

A Secretaria Municipal de Saúde informou que não houve problemas de vagas nas unidades hospitalares e o procedimento dependia da avaliação dos médicos. A previsão, segundo a Autarquia Hospitalar Municipal, era de que ainda na noite desta quinta a paciente fosse para o leito pediátrico . O estado de saúde era regular.

Protesto. Após a menina ser baleada, moradores da Vila Prudente protestaram na noite de quarta. Eles atearam fogo em entulho na Avenida Professor Luís Inácio de Anhaia Mello, perto da favela. Houve confronto entre PMs e manifestantes. As circunstâncias do caso na favela, diz a SSP, serão apuradas. As armas dos PMs foram apreendidas e o projétil será levado para confronto balístico. 

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.