EPITACIO PESSOA/ESTADÃO
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Memória viva, ex-combatente de 104 anos faz revelações sobre 32

Zuleika Sucupira se apresentou como voluntária com a intenção de ir como enfermeira para as frentes de combate, mas foi barrada por ser menor de idade e acabou trabalhando na montagem de kits de primeiros socorros

José Maria Tomazela, O Estado de S.Paulo

09 Julho 2017 | 03h00

SOROCABA - “Quando as tropas federais do norte e nordeste vieram pelo Rio de Janeiro e entraram em São Paulo, eles não atacaram a Sé, foram direto para o Brás e deram muitos tiros nas paredes das fábricas, nas casas, porque eles estavam com muita raiva dos italianos. É que a propaganda do Getúlio dizia que os imigrantes italianos queriam entregar São Paulo para o Mussolini (Benito Mussolini, primeiro-ministro italiano) e o fascismo.”

A revelação é de Zuleika Sucupira Kenworthy, de 104 anos, uma das últimas ex-combatentes da Revolução de 1932 ainda vivas. A moradora de Sorocaba, interior de São Paulo, fala dos fatos acontecidos há 85 anos, quando residia na capital, como se estivesse vendo um filme. “Quem me contou foi um parente que veio com as tropas do Ceará. Depois que a revolução acabou, ele esteve em casa. Pelo lado materno, minha família é Araripe Sucupira, lá do nordeste. O Getúlio usou o rádio para fazer lavagem cerebral naquele povo.”

Zuleika também teve contato com um dos atiradores getulistas que dispararam contra os estudantes que tentavam invadir a sede da Legião Revolucionária, na Praça da República, atingindo Martins, Miragaia, Dráusio e Camargo, em 23 de maio de 1932, fato que precipitou a revolução. “Era meio aparentado nosso e se chamava Maurício, não posso dizer o sobrenome porque é conhecido, e ficou se vangloriando de ter seguido os rapazes depois que eles atacaram um jornal. Ele deu o tiro de carabina que matou um deles, acho que foi o Miragaia. Três morreram na hora, o outro só depois, no hospital.” Segundo ela, o atirador alegou que os rapazes eram comunistas. “Eram nada, eram apenas estudantes que tinham ido fazer medicina ou engenharia na capital.”

A ex-combatente, que se apresentou como voluntária com a intenção de ir como enfermeira para as frentes de combate, foi barrada por ser menor de idade e acabou trabalhando na montagem de kits de primeiros socorros. A granada de mão que Zuleika guarda com carinho foi feita pelo irmão dela, estudante de engenharia da Escola Politécnica do Estado (hoje USP), que foi transformada em fábrica de armas pelos constitucionalistas. “Ele levou muita coisa de casa para fazer armas, fizeram até uma arma grande de lançar bombas a curta distância, que os soldados colocavam no ombro. Quando a revolução acabou, sobrou alguma coisa e ele trouxe essa granada para casa, mas já retiramos a pólvora”, diz.

A mulher, que mais tarde se tornaria a primeira promotora pública do Brasil, conta que o Estado não estava preparado para a revolução. “São Paulo não era uma cidade armada, era uma cidade de trabalho. Como houve a guerra, a força de trabalho foi direcionada para fazer armas e muita coisa que os paulistas criaram, depois, passou a ser usada pelo Exército. No fim, o Getúlio se apoderou de tudo.” Na época, sua família morava na Aclimação e, com o início dos combates, os alimentos começaram a escassear. “O próprio comércio organizou um racionamento. Tinha fila para o pão, arroz, feijão, café e farinha. Como nossa família tinha bom poder aquisitivo, a gente comprava comida mais cara e enlatados, assim deixava o básico para aqueles que não podiam pagar pelo mais caro.”

Ela conta que a situação se agravou quando as tropas de Getúlio bloquearam os rios do Mato Grosso, hoje Mato Grosso do Sul, por onde chegavam alimentos da Argentina. O Estado foi o único aliado dos paulistas. “Nos meses de guerra, São Paulo não fez outra coisa senão viver para a revolução. Enquanto o soldado estava na frente lutando, as pessoas estavam na retaguarda, fazendo tudo para dar a melhor condição a quem estava no front. Havia muita solidariedade. Minha mãe nunca havia costurado, mas aprendeu a montar o casaco do soldado. Ela passava dias e noites cosendo as mangas dos uniformes, que eram compridas por causa do inverno.”

Quando os soldados getulistas invadiram o território paulista pela região bragantina, um tio de Zuleika, Antônio Sucupira, era delegado em Amparo. “Parte da minha família morava em Espírito Santo do Pinhal. Alguém viu a tropa descendo em direção à capital e avisou meu tio. Ele ficou desesperado e, quando viu o único avião dos constitucionalistas sobrevoando a cidade, correu para a praça e acenou com o chapéu para o piloto. Ele fazia gestos indicando o inimigo para o avião atacar, mas quem estava no avião entendeu que era um cumprimento e tirou uma foto do meu tio acenando. Essa foto foi publicada, acho que no Estadão.”

O tio de Zuleika foi preso pelos getulistas e mandado para a prisão da Ilha das Flores, no Rio. Também ficou preso lá outro tio revolucionário dela, Luiz Sucupira. Outros parentes foram feridos em batalha. “Muitos anos depois, quando se reunia, a conversa em família era a revolução. Quando fui estudar direito na faculdade do Largo de São Francisco, encontrei muitos revolucionários. Éramos só três mulheres no curso e a gente se perguntava porque São Paulo fez a revolução. Acho que a luta não era contra o Getúlio, mas contra a ditadura. São Paulo não queria ser capacho de um ditador.”

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