Memória latina na Barra Funda

Anos atrás, durante uma viagem ao Paraguai, entrevistei o escritor Augusto Roa Bastos. Já idoso, Roa Bastos (1917-2005) conservava-se lúcido, ativo politicamente e criativo. O escritor era carinhosamente chamado por admiradores de "carpincho", que é a versão hispânica da capivara, bicho nativo dos alagados sul-americanos - presente na obra do escritor.

, O Estado de S.Paulo

31 Outubro 2010 | 00h00

Combativo, Roa Bastos foi obrigado por governos autoritários a deixar seu país. Mas passou os últimos anos da vida junto do seu amado Paraguai, terra que homenageou em Yo, el Supremo, obra de referência na sua literatura. O livro conta a história do ditador José Gaspar Rodriguez Francia, que mandou no país entre 1814 e 1840.

Na semana passada, lendo livro sobre os 21 anos do Memorial da América Latina (Fundação Memorial, 2010), reencontrei a figura de Roa Bastos (foto ao lado).

Na conversa que tivemos, após intervenção de um amigo jornalista paraguaio, em Assunção, onde Roa Bastos morava, o escritor disse que gostaria de viver no Brasil. Aquela "vontade" poderia ser apenas uma manifestação de gentileza com o visitante estrangeiro. Mas acho que ele estava mesmo sendo sincero.

Logo ao nascer, o Memorial já havia enxergado o tamanho das letras de Roa Bastos. Ele foi um dos primeiros intelectuais latino-americanos premiados pela entidade, em 1989, justamente por ter criado Yo, el Supremo.

O Memorial é um espaço paulistano dedicado ao debate, à cultura e à integração sul-americana. Desde os anos 60 que a vida nessa parte do mundo embalava sonhos de gente como "Darci Ribeiro, Fernando Henrique Cardoso, Milton Santos, José Serra, e outros", como lembra o livro da Fundação.

Seu complexo de salas é um monumento de São Paulo, uma ode à livre expressão de um ambiente que tem muito da obra roabastiana. Por aqueles prédios circulam ideias e manifestações de artistas e pensadores que emergem do modo de vida na América luso-espanhola. Shows e exposições atraem crianças, jovens e adultos.

Foi desenhado por um outro intelectual, o centenário Oscar Niemeyer, que nasceu em 1907, quando o Rio Branco - o histórico Barão que carrega no nome a divisa entre Brasil e Paraguai - ainda desenhava as fronteiras brasileiras, e desagradava aos vizinhos.

A criação de Niemeyer foi erguida sobre "lamaçal de argila vermelha misturada com outros tipos de terra, mais de 1.500 operários, cujo pico chegou a 2.800, sujos dos pés à cabeça, dedicavam-se ao labor da construção", relata o livro da Fundação Memorial.

O arquiteto, que tem outras intervenções marcantes na cidade - Parque do Ibirapuera e Edifício Copan -, mudou a paisagem da Barra Funda, na zona oeste, onde existia o pátio de trens de carga da antiga Fepasa. As formas sinuosas da construção abriram portas para o diálogo entre povos que, afinal, falam quase a mesma língua.

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