Tiago Queiroz / Estadão
Tiago Queiroz / Estadão

‘Memória dela é eterna, mas não é ferida tão aberta’

Mãe de Isabella Nardoni, morta há dez anos, diz esperar que pai e madrasta, condenados por matá-la, fiquem presos o resto da vida

Felipe Resk, O Estado de S.Paulo

24 Março 2018 | 03h59

“Eu realmente aprendi a lidar com a dor”, responde Ana Carolina Oliveira, de 33 anos, com naturalidade, já na primeira pergunta sobre os 10 anos sem a filha Isabella Nardoni. Ao Estado, a mãe da menina diz que superou a tragédia e refez a vida. Está casada, tem outro filho de 1 ano e (quase) 10 meses, o Miguel, e faz planos de engravidar de novo. “A memória dela, para mim, é eterna. Tenho saudade, é claro, mas hoje não é uma ferida tão aberta.”

O assassinato de Isabella, em 29 de março de 2008, atraiu holofotes do Brasil inteiro e até houve pedido para a Justiça transmitir ao vivo o julgamento. Parte da repercussão se explica: o júri entendeu que os autores do crime foram o pai, Alexandre Nardoni, e a madrasta, Anna Carolina Jatobá, condenados a 30 e 26 anos. Os dois alegam inocência, e a defesa recorre no Supremo Tribunal Federal.

“Quem cometeu era quem deveria protegê-la”, afirma a mãe, que prefere mudar de assunto a falar do casal. Concorda com a Justiça e acredita que os dois são culpados. “Uma pessoa que comete um crime desses deveria ficar presa o resto da vida dela”, diz. “Deles, tenho dó.”

Em duas horas de conversa, Ana Carolina mostra ser extrovertida. É mais fácil vê-la fazer piada do que chorar. Emocionou-se uma vez, ao contar que Isabella, estirada no jardim, ainda estava viva quando ela chegou ao Edifício London, o prédio dos Nardoni. “Acredito que me esperou para se despedir.”

Família 

Isabella sorri em dois porta-retratos na estante da sala. Na parte de baixo do móvel, estão um Fusca, uma Kombi e mais carrinhos de brinquedo do irmão, Miguel, que não teve chance de conhecê-la. Outra foto da garota decora a geladeira. “Isa, te amaremos eternamente”, diz a mensagem escrita nela. O apartamento fica a cerca de 1 km do London. “Meu marido trabalha ao lado do prédio”, comenta Ana Carolina, sem dar importância à coincidência.

+ Pai e madrasta de Isabella Nardoni pedem redução de pena ao STF

Evitar dramalhão é um traço recorrente do perfil de Ana Carolina que, nesses dez anos, chegou a ser alvo de críticas por desconhecidos que a julgavam “fria”. “A Isa não gostava de me ver triste. Eu preciso seguir”, ela dizia na época. Já os amigos a descrevem como uma mulher “forte” e que tem “dimensão da tragédia”, mas optou por não se entregar. “Não preciso aparecer chorando na TV para mostrar que sofri”, afirma hoje.

No luto, ela ficou sem comer, ganhou olheiras e evitou entrar no quarto que dividia com Isabella na casa dos pais. Fez terapia por anos. Uma década depois, segue no mesmo emprego de bancária. Também recebeu proposta para escrever um livro e, certa vez, negou autógrafo a uma garota. “Não sou celebridade”, justifica. “É mais comum pedirem para dar um abraço. Aí, eu sempre dou.”

O avô materno visita o túmulo de Isabella todo domingo. A mãe, por sua vez, não costuma ir ao cemitério “A memória dela é muito além de uma campa”, diz Ana Carolina, que é espírita, doutrina que crê em reencarnação e não sacraliza o corpo. “Para um caso como o meu, é onde se encontra mais respostas.”

Filhos

Conheceu o marido Vinicius Francomano, de 31 anos, às vésperas de ir estudar seis meses na Califórnia, nos Estados Unidos. Eles se casaram em 2014: Miguel nasceu dois anos depois. “Não houve menção a Isabella até o momento final, do beijo dos noivos”, conta o reverendo Aldo Quintão, que celebrou a cerimônia na Catedral Anglicana de São Paulo. Nessa hora, tocou Noites Traiçoeiras, do Padre Marcelo Rossi, em homenagem à menina: “O mundo pode até fazer você chorar/mas Deus te quer sorrindo”.

“Tenho lembranças boas, e não de sofrimento”, afirma Ana Carolina, que guarda roupas, calçados e brinquedos de Isabella. Entre eles, há um coelhinho de pelúcia com o qual ficou abraçada no velório da filha. “Por coincidência, Miguel estava brincado com ele outro dia.”

+ Júri estava contaminado ao condenar casal, diz defesa

As crianças, porém, não são tão parecidas assim. Isabella era corintiana. Miguel, palmeirense. Ela, quietinha, preferia ficar em casa e assistir a Monstros S.A. ou Procurando Nemo, seus filmes favoritos. Ele, agitado, gosta mesmo de passear. “Sempre quis ter três filhos. Quero engravidar, no máximo, até o ano que vem, mas ainda preciso combinar com meu marido”, ela ri.

Isabella morreu, aos 5, no ano que seria alfabetizada. Tinha o sonho de aprender a ler. Miguel está na fase de falar sem parar, imitando até propaganda. Outro dia, deixou todo mundo de boca aberta quando a campainha tocou. “Ó, pancainha”, disse, trocando as sílabas. Isabella falava exatamente assim.

Cronologia

29/03/08: A menina Isabella de Oliveira Nardoni, de cinco anos, morreu após ser jogada do 6º andar do Edifício London.

02/04/08: O Tribunal de Justiça decretou a prisão preventiva do pai, Alexandre Nardoni, e da madrasta, Anna Carolina Jatobá; o casal foi soltou dez dias depois, mas logo voltou à prisão

27/03/10: Júri condena casal por homicídio triplamente qualificado; julgamento foi marcado por protesto do lado de fora do Fórum de Santana

21/02/13: O Superior Tribunal de Justiça (STJ) negou recurso da defesa dos Nardoni para realização de novo júri

11/11/17: No semiaberto, Anna Carolina Jatobá deixa pela primeira vez a penitenciária em Tremembé, para saída temporária de Dia das Crianças

02/03/18: Defesa dos Nardoni entra com habeas corpus no Supremo Tribunal Federal (STF) pedindo redução da pena do casal

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Júri estava contaminado ao condenar casal, diz defesa

Segundo Roberto Podval, advogado de defesa de Alexandre Nardoni e Anna Carolina Jatobá, a repercussão do caso fez com que os réus virassem culpados antes do julgamento

Felipe Resk, O Estado de S.Paulo

24 Março 2018 | 03h52

O júri estava contaminado ao condenar Alexandre Nardoni e Anna Carolina Jatobá. A repercussão do caso fez com que os réus virassem culpados antes do julgamento. É o que propõe o advogado de defesa do casal, Roberto Podval, que recorre ao Supremo Tribunal Federal (STF) para tentar reduzir a pena dos dois e já prepara o próximo habeas corpus pedindo um novo júri que, em tese, poderia acontecer em 2019. “Os jurados foram para lá tendo de condenar, ou seriam condenados pela sociedade”, defende.

Na prisão, Nardoni e Jatobá trabalham e têm comportamento “exemplar”, diz Podval. Apesar de estarem em unidades diferentes, os dois continuam juntos. Ela, no regime semiaberto, pode deixar o presídio em datas comemorativas - a primeira foi no Dia das Crianças. O benefício pode ser concedido a Nardoni pela Justiça até o fim do ano, estima a defesa.

No júri, a estratégia da defesa foi apontar falhas na investigação e sugerir a tese de que outra pessoa matou Isabella?

Eu tinha uma limitação, absoluta e indiscutível: a negativa de autoria do casal. Não tenho o direito de pedir para contarem uma história que não é a que me dizem ser a verdadeira. Como estratégia, poderia pensar que se um deles assumisse a responsabilidade, o outro estaria solto. Mas os dois, até hoje, negam categoricamente. Isso é forte e coloca uma dúvida: eles não podem estar falando a verdade? Então só podem ter acontecido duas coisas. Ou a menina cortou a tela, foi olhar pela janela e caiu - o que, embora possível, não era provável. Ou alguém pode ter feito isso, uma terceira pessoa.

E como seria a cena do crime?

Não sei o que aconteceu, mas posso assegurar que a acusação, montada daquela forma, não é verdadeira. Fizeram maquete, laudo, descrição do crime. E não bate. O grande problema é que não tínhamos ambiente para contestar. As pessoas estavam fechadas. Se a gente tivesse colhido os votos antes do júri, o resultado seria o mesmo. Esse é o peso que vamos trazer no próximo habeas corpus: é possível validar um júri feito nessas condições? Nos Estados Unidos, pessoas conseguiram anular o júri por força da pressão midiática. No Brasil, esse assunto nunca foi questionado no tribunal.

Tecnicamente, quais seriam as falhas de investigação?

Os peritos partiram do convencimento de que o casal cometeu o crime e foram buscar as provas criminais. Não partiram do fato para buscar o que aconteceu.

O senhor chegou a ser agredido no fórum por defender os Nardoni. Foi ameaçado depois?

A gente era muito mal visto. Tenho uma filha que era da idade dela (Isabella). Era duro chegar em casa e tentar explicar, com o colégio inteiro falando que o pai dela defendia alguém que jogou uma criança pela janela. Imagina eu, que sou pai separado, e minha filha pedir para um amiguinho dormir lá em casa. Eu ia pedir autorização, me olhavam torto. Ia ao supermercado, as pessoas batiam o carrinho em mim. Clientes não entendiam. Muitos advogados negaram a causa.

A ida de Anna Jatobá para o semiaberto causou repercussão negativa. O senhor credita a quê?

A sociedade ainda não está preparada para viver em uma democracia. Um caso muito parecido com esse é o de Madeleine (criança inglesa que desapareceu quando passava férias com os pais em Portugal, em 2007). A polícia acusa os pais de terem matado a filha e os pais negam. E a sociedade inglesa abriu uma conta para depositar dinheiro e ajudar com advogado. Todos entendiam que eles deveriam ser considerados inocentes porque ninguém sabia o que aconteceu. Essa é uma sociedade mais madura.

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