Memória? Dane-se a memória

Uma olhadela na paisagem de São Paulo mostra a crescente presença dos prédios de luxo, com apartamentos de andar inteiro, objetos do desejo de muito paulistano nesses dias de explosão imobiliária e crédito facilitado. Pudera. Com tanto carro atravancando as ruas e solapando o precioso tempo do paulistano, nada melhor do que ter conforto no lar após um dia duro na firma.

, O Estado de S.Paulo

20 de junho de 2010 | 00h00

Essa busca pela boa morada em condomínios verticais nem é tão antiga por aqui. Começa a aparecer à larga na cidade na década de 30, quando Rino Levi (1901-1965) identifica oportunidade na mudança de comportamento habitacional e aposta suas fichas no Edifício Columbus, prédio erguido na Avenida Brigadeiro Luís Antônio, no centro.

A cidade vivia o tempo da construção de seus primeiros arranha-céus, como o Martinelli, que acabava de subir na Líbero Badaró. E o Columbus foi o primeiro edifício de apartamentos de luxo, projetado em 1928, construído em 1932, com 12 andares, a entrar no mercado. O prédio nasceu do desafio de "abrigar numerosas famílias e (...) oferecer-lhes o maior confôrto (sic) possível", diz Levi no livro sobre sua arquitetura, publicado em 1974 em Milão. Os apartamentos do Columbus marcaram o jeito de morar na cidade que iniciava fase de forte crescimento.

"Do ponto de vista funcional, o prédio representava uma completa renovação nos hábitos paulistanos", escreveu Nestor Goulart Reis Filho, comentando a obra do arquiteto. O Columbus, com seus mármores, granito preto, linhas retas e curvas, luzes e sombras, mostrou o expressionismo alemão por 40 anos - foi demolido em 1971. A região mudou e veio a marreta.

Ainda há muitos Rino Levi pela cidade, felizmente, ensinando o jeito de morar no passado. E o que aconteceu com o Columbus foi um daqueles infelizes momentos paulistanos. Memória? Dane-se a memória.

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