CAIO SHIOMI/ESTADÃO - 16/06/2022
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Memória da Guerra do Paraguai, Palácio do Imperador ganha restauro no interior de SP

Prédio estava em ruínas e ameaçava desabar; a primeira fase da restauração será concluída até o final de julho

José Maria Tomazela, O Estado de S.Paulo

17 de junho de 2022 | 15h00

SOROCABA - Um dos raros legados da Guerra do Paraguai no estado de São Paulo, o Palácio do Imperador, mandado construir por D. Pedro II, em 1858, em Itapura, na divisa com o Mato Grosso do Sul, está sendo restaurado. O prédio que abrigou o comando de tropas nacionais durante o enfrentamento ao ditador paraguaio Solano López, estava em ruínas e ameaçava desabar, como mostrou o Estadão em 2018. A primeira fase da restauração, que inclui a recomposição da estrutura de alvenaria, reforma do telhado, colocação de novos pisos e pintura, será concluída até o final de julho deste ano. Outras duas fases de obras, para acabamento, paisagismo e redefinição de uso, ainda serão licitadas.

O palácio foi erguido para fortalecer a defesa do Brasil, protegendo a barra do Rio Tietê, e acabou sendo estratégico para proteger o estado contra o avanço das tropas paraguaias pelo atual Mato Grosso do Sul, na época, Mato Grosso. O prédio foi o quartel-general de uma colônia militar instalada entre os rios Tietê e Paraná, abrigando o comando da base naval brasileira que foi decisiva para a vitória contra Solano Lopes. Alguns historiadores dizem que D. Pedro II se hospedou no local quando inspecionava as tropas brasileiras. O casarão de dois pavimentos também foi cenário das comemorações pela vitória do Brasil no conflito.

A base da marinha foi extinta em 1970 e a colônia militar, repassada para o exército, foi desativada em 1986. O prédio foi usado por repartições públicas do  município de Itapura até 1989, quando foi fechado e ficou abandonado. Em 1969, o Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Artístico, Arqueológico e Turístico (Condephaat) tombou o edifício e seu entorno, com base em relatório sobre sua “importância para a história e a cultura do local, da região e do País”. Isso não impediu que o longo abandono degradasse totalmente a construção, que chegou a ter portas e janelas arrancadas por vândalos.

De acordo com a Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Estado de São Paulo, ainda em 2019 o Condephaat aprovou o projeto de restauro do imóvel. O projeto  escolhido, do arquiteto Carlos Ferrata, foi ganhador de um concurso via programa de fomento à cultura do Governo do Estado de São Paulo (ProAC) e, atualmente, se encontra em implementação em etapas, conforme a captação dos recursos. O restauro é acompanhado pela área técnica da Unidade de Preservação do Patrimônio Histórico (UPPH).

O projeto levou em conta o critério conservativo, mantendo a originalidade e o valor cultural de cada ambiente. Foram feitas novas intervenções apenas para modernizar e readequar os espaços. Entre elas, a construção de um espaço anexo ao edifício original, em sua face cega, ou seja, com a visão encoberta pela do palácio, com elevador e banheiro adaptado a portadores de necessidades especiais nos dois pavimentos. A nova construção foi feita em concreto armado, com fundações independentes da construção original.

A licitação para a primeira fase das obras foi vencida pela Concresp, empresa com sede em Andradina. De acordo com o diretor Bruno Crespi, os serviços envolveram a revisão da alvenaria para eliminar trincas, o reforço das fundações e das estruturas de suporte das portas e janelas. "É um prédio sólido, com toda a estrutura em tijolões de barro, muito resistentes. Apenas o madeiramento estava bastante comprometido, tanto nos pisos, quanto no telhado", disse. Os barrotes de madeira que sustentavam os pisos dos dois pavimentos foram substituídos por estruturas metálicas para dar mais segurança ao prédio.

Segundo Crespi, uma das dificuldades está sendo encontrar a madeira usada originalmente na construção, o cumaru, originário da floresta amazônica. "É uma madeira nobre, de alta densidade, que não encontramos aqui na região. Estamos buscando fornecedores na capital", disse. As guarnições, portas e janelas também serão de madeira maciça. O telhado foi refeito integralmente, mas foi possível aproveitar parte do madeiramento original. As telhas são do tipo calha colonial. O restauro incluiu a colocação de manta térmica entre as telhas e o forro.

As instalações hidráulica e elétrica ganharam dutos aparentes para evitar a intervenção necessária para embutí-las nas sólidas paredes de alvenaria. A pintura externa foi feita à cal, conforme o padrão da época, após a impermeabilização do reboco. A pintura interna e o acabamento ficarão para a próxima fase, que ainda depende da captação de recursos, que está em andamento.  

Já a terceira etapa prevê a construção de duas praças no entorno do palácio, ambas calçadas com blocos intertravados. As praças devem inserir o palácio no contexto urbano, incorporando o bosque já existente, com árvores antigas, incrementado com plantios recentes de ipês e sibipirunas.

Após a conclusão da obra, a prefeitura pretende instalar no local a Secretaria Municipal de Turismo, além de uma biblioteca, com espaço para os estudantes realizarem pesquisas e estudos. Haverá ainda um museu fotográfico, contando pelas imagens a história da cidade. Os turistas e visitantes terão acesso a um acervo sobre a história da Colônia Militar de Itapura.

Fábrica de armas

O Palácio do Imperador é uma das poucas lembranças físicas da Guerra do Paraguai no estado de São Paulo, que teve um expressivo contingente de paulistas engajados como voluntários da Pátria para combater o exército paraguaio. Em Iperó, estão preservados os remanescentes da Real Fábrica de Ferro São João de Ipanema, onde foram produzidos sabres, facões e outras armas usadas pelos soldados brasileiros durante o conflito. 

A fábrica, criada em 1810, foi a primeira siderúrgica do País e produzia ainda arados, pregos e enxadas. Em 1871, a princesa Isabel e seu marido, Conde d’Eu, foram à fábrica para agradecer aos operários pela fabricação de armas e munição usadas na guerra. O conjunto é tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). O núcleo histórico, na Floresta Nacional de Ipanema, é gerido pelo Instituto Chico Mendes (ICMBio) e aberto a visitas.

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