Medo silencia família de rapper morto em chacina

Amigos afirmam que ataque com 7 vítimas e 2 feridos é retaliação de PMs; moradores do Campo Limpo prometem fazer protestos

ARTUR RODRIGUES, O Estado de S.Paulo

07 Janeiro 2013 | 02h38

Ao som do rap Morro Triste, que fala sobre um assassinato na periferia, cerca de cem de pessoas se despediram de Laércio de Souza Grimas, de 33 anos, o DJ Lah, na tarde de ontem. O integrante do grupo Conexão do Morro foi um dos sete mortos na primeira chacina do ano na capital, no Campo Limpo, zona sul.

Ele foi enterrado às 14 horas no Cemitério dos Jesuítas, em Embu das Artes, na Grande São Paulo. O clima, durante o sepultamento, era de medo. Amigos e familiares não quiseram dar entrevista, alguns deles por temer novas mortes na região. A vizinhança suspeita que o crime foi praticado por policiais militares ligados a grupos de extermínio.

"O governador Geraldo Alckmin diz que está tudo sob controle, mas não está. Meu filho foi morto em outubro e, agora, meu primo", afirma uma parente de DJ Lah, que pediu para ter o nome preservado. O filho dela, de 19 anos, foi morto por encapuzados quando buscava uma pizza, em uma ocorrência que terminou com mais dois mortos e uma mulher baleada.

Segundo amigos da vítima, durante a noite, o rapper Mano Brown, do Racionais MC's, compareceu ao velório do parceiro musical. A página do grupo no Twitter divulgou uma mensagem de indignação sobre o caso. Outros rappers se manifestaram pelo microblog. "Estão matando nossos irmãos deliberadamente", escreveu Dexter.

Durante o enterro, os integrantes do Conexão do Morro disseram não estar em condições de falar sobre a morte do DJ. Em nome do grupo, que tem várias músicas denunciando a violência policial, o empresário Samuel Ferreira da Silva, de 48 anos, o DJ San Mix, afirmou: "O sistema causa essa violência. Então, a gente procura abrir os olhos do povo, para ter a lei do lado e combater essa violência".

Antes de levar o corpo do músico, os amigos ainda cantaram o samba A Amizade, do grupo Fundo de Quintal. O caixão seguiu coberto com uma bandeira do São Paulo Futebol Clube e outra do Conexão do Morro.

Despedida. Outras duas vítimas da chacina, os irmãos João Batista Pereira de Almeida, de 34 anos, e Edilson Lima Pereira Santos, de 27, foram enterrados no Cemitério Horto da Paz. "Eles tinham parado para comprar um guaraná e estavam saindo, mas os encapuzados mandaram eles voltarem", disse um líder comunitário. Segundo testemunhas, 14 homens encapuzados chegaram ao bar atirando.

O líder comunitário afirmou que a população pretende fazer um protesto nos próximos dias contra as mortes frequentes.

Neivan dos Santos, de 23 anos, ferido de raspão na perna, teve alta anteontem. Oswaldo dos Santos, de 20 anos, baleado no tórax, passou por cirurgia ontem e se recuperava bem, segundo a Secretaria Municipal da Saúde.

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