Medo faz vizinhos e comerciantes mudarem a rotina

Segundo eles, não são raros os furtos e abordagens cometidos por dependentes; PM e comunidade discutem soluções para o problema

O Estado de S.Paulo

25 Outubro 2012 | 03h04

Relatos de pequenos furtos e abordagens incisivas aos pedestres são comuns entre moradores e comerciantes da área próxima ao Viaduto Okahara Okei. E muitos reclamam que já tiveram de mudar seus hábitos. Por causa do número de queixas, a Polícia Militar fez reunião anteontem com a comunidade para discutir ações e tentar achar soluções. Outro encontro foi marcado para a semana que vem.

O motorista Ismael Paulo Araújo, de 25 anos, conta que é frequente ouvir casos de furtos de pedestres e de carros estacionados na rua. "Outro dia, um noia me mostrou até a arma que estava carregando. A Guarda (Civil Metropolitana) vem, espalha todos eles, mas depois eles voltam. Muita gente desce do ônibus na Angélica e vai andando até a Paulista. Os pedestres se assustam, mas eu já estou acostumado."

A advogada Aldarice Maia, de 61 anos, mudou sua rotina por medo dos usuários. Antes de entrar em casa, ela diz que passa várias vezes com o carro para ter certeza de que não há perigo na entrada. Quando vai à padaria, leva o "dinheiro contado" para o pão. "Descobri hoje (ontem) que os moradores do prédio decidiram colocar uma grade a mais aqui na frente para tentar afastar os usuários." O edifício de Aldarice tem a entrada recuada e alguns usuários de drogas utilizam sua marquise para dormir à noite.

Segundo o capitão Gerônimo Antônio, do 7.º Batalhão da Polícia Militar, que coordena as reuniões com moradores, comerciantes e associações, a ação no local depende da comunidade. "Estamos tentando detectar porque eles (os dependentes) estão ficando nessa região, coisa que não acontecia antes. Temos de minimizar o impacto dos elementos que estão propiciando a cracolândia." Entre esses elementos, o capitão cita a alimentação dada por vizinhos e o consumo de droga.

O oficial diz ainda que a PM já entrou em contato com a Prefeitura para construir uma edificação que dificulte o acesso dos usuários à parte inferior do viaduto. A Secretaria de Coordenação de Subprefeituras afirma, no entanto, que não há obras previstas para o local.

Saúde pública. Para moradores, tratar o caso só como questão de polícia não é a solução mais adequada. "O que está em pauta é muito mais uma questão de saúde pública. A cidade inteira está infestada de usuários e o poder público não pode simplesmente despejar as pessoas de um lugar para outro", diz a diretora da Associação Paulista Viva, Marli Lemos.

O antropólogo Paulo Malvasi, autor de uma tese sobre o mercado de drogas na cidade, diz que quando os usuários de droga estão espalhados fica mais difícil concentrar as ações, seja de cuidado, seja de segurança pública. "Dessa forma, expõe-se as pessoas e se coloca o usuário frente ao ato de violência", diz. "Tem de se ter a compreensão de que um ato repressivo não muda estratégias de ocupação do espaço urbano."

A Prefeitura diz que equipes das Secretarias Municipais de Assistência Social e Saúde vem realizando um trabalho de "aproximação e convencimento no local". "A atuação dos agentes é diária na região da Nova Luz e onde se fizer necessária", afirma, em nota. Ainda de acordo com a administração, equipes do Programa Saúde nas Ruas e do Núcleo de Apoio à Saúde da Família (NASF) atuam em todos os locais em que é identificado o consumo de crack. / JULIANA DEODORO

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