Medo da violência já muda rotina até na Paulista

Boato de toque de recolher fechou mais cedo escola de idiomas na principal avenida de SP; na periferia, moradores sofrem com violência

ARTUR RODRIGUES , WILLIAM CARDOSO, O Estado de S.Paulo

31 Outubro 2012 | 02h04

A violência mudou a rotina dos paulistanos. Nos últimos dois dias, a guerra não declarada entre Polícia Militar e o Primeiro Comando da Capital deixou escolas vazias, fez lojas baixarem as portas e resultou no aumento de casos de ônibus incendiados. Até na Avenida Paulista, o medo fez uma escola de idiomas fechar mais cedo ontem. Uma professora contou que o clima de tensão fez a unidade dispensar os alunos duas horas antes, às 21h. "Até no Metrô vi gente (de outras empresas) comentando sobre o assunto", diz.

Na periferia, a situação é bem pior. "Fico rezando até meu filho chegar do trabalho", conta a dona de casa Maísa Dantas da Silva, de 51 anos, que vive no Parque Santa Madalena, zona leste, e anteontem teve a noite de sono interrompida por um ônibus incendiado na frente de casa.

Perto dali, onde um rapaz foi baleado anteontem, ninguém mais sai na rua à noite. "Ouvi os tiros. Cinco. Pá, pá, pá. E depois: pá, pá", lembra um adolescente que também não vai mais à escola por medo. "Tem um Corsa vermelho que passa atirando em todo mundo."

Em Perus, na zona norte, o comércio fechou mais cedo ontem na Avenida Doutor Silvio de Campos. Uma manicure de 38 anos disse que uma colega de trabalho recebeu SMS avisando sobre o toque de recolher. "Normalmente vou até as 20h, mas hoje (ontem) fecharei às 17h", disse. "Na pizzaria aqui da frente, ligaram dizendo que o limite é 18h. Senão vai ter tiroteio."

No Facebook, pessoas compartilham mensagem dizendo que "até crianças são alvo de execução pelo crime organizado".

As notícias da guerra também mudaram a rotina na zona sul. "Não saio mais à noite e, na nossa família, ligamos um para o outro para saber se tem alguém na rua depois das 22h. É uma situação bastante tensa", disse o motorista Aderson Neves, 34 anos.

Uma professora da rede municipal de ensino de 41 anos disse que o filho chegou mais cedo em casa anteontem, depois que boatos de toque de recolher tiraram o sossego na escola onde estuda, no Parque Ipê. Para diminuir a chance de que ele seja atacado nas ruas, ela fez algumas recomendações. "Falei para ele andar com a carteirinha da escola no bolso e com a mochila nas costas, para que saibam que ele está voltando da aula", disse. Para ela, o medo maior é de que o filho seja confundido por matadores com algum criminoso.

A educadora Eliane Maria, de 34 anos, disse que fios de energia elétrica foram queimados ao redor da ONG onde atende crianças e adolescentes de 6 a 14 anos no Jardim Caiçara. Seria um protesto de moradores pela insegurança. "Ficamos fechados por um dia na semana passada. Quem sofre são justamente aqueles que mais precisam da nossa ajuda."

Até mesmo quem é contratado para dar segurança ao comércio está receoso. Um vigia de 41 anos passou a vestir roupa de atendente em uma farmácia no Jardim Jangadeiro para não ficar tão exposto. Também mudou a rotina e agora volta em grupo com outros colegas para casa. "Juntamos uns cinco e pagamos para um amigo levar cada um em casa. Tive conhecidos que eram 'mikes' (PMs) e foram mortos."

A atendente Sueli Lima, de 40 anos, sai à noite do serviço, no centro do Capão Redondo. Agora, só volta para casa acompanhada do filho. "Na sexta-feira, ele ouviu que teria ataque do PCC e veio correndo me buscar. A gente fica assustada com tudo isso."

Sem aula. Na zona oeste, moradores do Jardim João 23 foram vítimas de toque de recolher anteontem, com comércio fechando e pais buscando os filhos no meio da tarde no CEU e na Etec Uirapuru. Na noite de ontem, alunos da EMEF Angelina Maffei Vita, no Limão, zona norte, saíram antes das aulas, às 20h40. A informação foi dada por guardas-civis que fazem a segurança do local. Nos arredores, comércios e bares funcionavam normalmente às 21h30.

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