Médico das canetas.Há mais de 5 décadas

Desde 1958, ele conserta ''tudo o que escreve'' e sua clientela, de famílias tradicionais, paga até R$ 1,7 mil pelo serviço

Edison Veiga, O Estado de S.Paulo

01 Março 2011 | 00h00

É seu Roberto. Mas pode chamar de doutor mesmo. Isso porque Roberto Marques, de 72 anos, é médico de canetas. "Conserto tudo o que escreve", resume. Ou seja: canetas tinteiro, lapiseiras, esferográficas... Ele garante que jamais diz "não" a um cliente. "Se eu não tiver a peça, eu mesmo a faço", diz, apontando para o torno.

O início da carreira desse paulistano da Barra Funda, zona oeste, foi como relojoeiro. "Comecei aos 12 anos, na relojoaria de meu tio", recorda-se. Três anos depois, recebeu uma proposta da concorrência. "Fui para ganhar o triplo por mês", conta. Só que lá o ambiente era muito mais profissional do que na pequena empresa do tio. Só de relojoeiros, havia dez. Também tinha ourives e um - isso, apenas um - caneteiro. "Um mês depois, vieram me pedir para me tornar caneteiro", narra. De bate-pronto, não quis. "Imaginei que era como ser rebaixado, veja só", ri. "Como ameaçaram me demitir, não tive alternativa!"

Mas como virar caneteiro assim da noite para o dia? Foi aprender nas lojas autorizadas. Ficou três meses em treinamento em uma marca, outros meses em outra, e assim foi. "E aprendi muito por conta própria, quebrando canetas", admite. Em 1958, a relojoaria decidiu extinguir o departamento de conserto de canetas. Roberto não pestanejou: pegou suas coisas, alugou um cubículo de 2 metros quadrados na Rua Barão de Paranapiacaba, no centro de São Paulo, e foi virar médico de canetas por conta própria. Mudou de endereço algumas vezes, sempre pelos arredores. Desde 1985 ocupa um imóvel no número 51 da mesma Barão de Paranapiacaba. Há cinco anos, mantém uma filial na Rua Marconi, 67, também no centro.

Para os consertos, hoje conta com o auxílio de um assistente bem treinado. Deixar uma caneta tinindo pode levar de dez minutos a cinco horas de trabalho. Uma revisão completa custa de R$ 20 a R$ 450 - conforme a complexidade e o valor da caneta. "Um conserto pode chegar até a R$ 1,7 mil", conta Roberto.

E a clientela? "Geralmente são os de família tradicionais, que mantêm o hábito de usar canetas caras. Caneta é status", comenta. E, como é cada vez mais difícil achar um caneteiro, Roberto atende a pedidos do Brasil todo. "Mandam por Sedex, ligam para saber do serviço...", diz ele, para emendar: "Mas sou de uma profissão em extinção. O pessoal hoje prefere essas coisas de informática."

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