Medicina da USP suspende festas no câmpus após denúncias

Cancelamento é válido até 26 de novembro, quando a Congregação da Faculdade de Medicina fará uma reunião extraordinária 

Edgar Maciel, O Estado de S. Paulo

18 Novembro 2014 | 16h36

Atualizada às 20h15

SÃO PAULO - A direção da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) emitiu nesta terça-feira, 18, resolução que suspende temporariamente as festas realizadas pelo centro acadêmico no câmpus. A medida, assinada pelo diretor José Otavio Costa Auler Junior, foi adotada após a denúncia de duas alunas da USP que revelaram terem sido estupradas durante confraternizações da faculdade.

Essa decisão da direção foi tomada de forma emergencial, uma vez que para hoje estava marcada a festa Quarta Insana, que reuniria estudantes de Medicina, Nutrição e Enfermagem. Segundo a FMUSP, a suspensão foi unânime entre o conselho para evitar qualquer tipo de situação que possa resultar em infrações ou denúncias.

O cancelamento das festas dentro da faculdade será válido até o dia 26 de novembro, na próxima quarta-feira, quando a Congregação da Faculdade de Medicina fará uma reunião extraordinária para discutir as denúncias de estupro. Os professores devem avaliar quais medidas podem ser adotadas para regular as festas dos estudantes, como segurança e limite de horário para os eventos. Também não está descartada a possibilidade de suspender por tempo indeterminado as confraternizações no interior da universidade.

A Associação Atlética Acadêmica (AAAOC) recebeu a notificação na manhã desta terça e cancelou o evento desta quarta, que já tinha mais de 500 convidados confirmados nas redes sociais.O Estado entrou em contato com a direção do centro acadêmico, que preferiu não se manifestar. Na página da festa, os alunos criticaram o cancelamento e também fizeram referência ao caso de violência na universidade. “Partiu matar a ‘puta’ que foi estuprada”, disse uma aluna do curso de Enfermagem. O comentário foi apagado no começo da noite desta terça.

Segundo alunos do curso de Medicina, a festa ainda pode acontecer nesta semana. A direção do AAAOC teria comunicado aos estudantes que está tentando uma outra locação para realizar a Quarta Insana. “Quando fui trocar o meu ingresso pelo dinheiro na Nutrição, comentaram que era só um adiamento da data e até o fim da semana a festa seria remarcada”, disse uma aluna do 3.º ano de Nutrição, que preferiu não ser identificada.

Denúncias. Há uma semana, duas alunas da USP relataram publicamente estupros sofridos em festas promovidas por alunos da instituição na capital. Os depoimentos foram dados em uma audiência pública na Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp). Uma estudante do 4.º ano, de 24 anos, disse que sofreu dois estupros em 2011 em festas da associação. 

Outra estudante, também não identificada, contou que foi violentada sexualmente na festa Cervejada, em 2013, organizada pelos estudantes de Medicina. Ela disse ter sido abordada por dois alunos, do 4.º e do 5.º ano, que a chamaram para beber no carro de um deles. Quando a jovem foi até o local, alegou ter sido abusada. “Passaram a mão nas minhas partes íntimas. Eu gritei para que parassem e continuaram”, afirmou.

Inquérito. O Ministério Público abriu inquérito no fim de agosto para apurar o caso. Nesta quarta, uma comissão da FMUSP vai prestar depoimento no MP para prestar esclarecimentos sobre oito denúncias de violência sexual. Segundo os promotores que investigam o caso, as vítimas afirmam que “não houve suporte” da diretoria da faculdade na apuração dos casos. Os colegas de curso também perseguiam as vítimas dentro da universidade após os casos. 

Após o depoimento das estudantes, outros dois relatos de violência sexual foram relatado à promotoria na FMUSP e na unidade de Ribeirão Preto.

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