Médica matou marido na UTI em 2006, diz ex-colega à polícia

Mulher que fez a denúncia em depoimento não teve identidade revelada e disse que trabalhou com a acusada

JULIO CESAR LIMA , ESPECIAL PARA O ESTADO , CURITIBA, O Estado de S.Paulo

02 Março 2013 | 02h07

A médica Virgínia Soares de Souza, chefe da Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Hospital Evangélico, em Curitiba (PR), presa em 19 de fevereiro sob a acusação de colaborar na morte de pacientes, também foi acusada, no dia 24, de ter desligado o aparelho que mantinha vivo o então marido e ex-chefe da UTI, Nelson Mozachi. A denúncia consta do processo oficial, ao qual o Estado teve acesso.

"Ela desligou o oxigênio do próprio marido que estava internado e veio a falecer", diz um dos depoimentos. A autora, que não é identificada na denúncia, teria trabalhado com a médica em 2006, ano da morte de Mozachi, que sofria de câncer do intestino e tinha problemas cardíacos.

Segundo o advogado de defesa da médica, Elias Mattar Assad, trata-se de "mais uma acusação caluniosa". "Esse tipo de crime é muito grave e não se prova com uma denúncia. Isso é um falso testemunho, uma acusação caluniosa e essa pessoa terá de provar o que está dizendo", afirmou ontem.

O outro ex-marido de Virgínia Soares, o médico cardiologista Nelson Marcelino, também desqualificou a acusação. "Não há como um leigo saber como se usa ou que critérios são adotados para se usar o oxigênio na UTI. Como uma pessoa pode avaliar, analisar de forma científica, o uso maior ou menor desse oxigênio? Isso é uma idiotice, é algo sem fundamento", afirmou.

O depoimento da testemunha ocorreu na delegacia do Núcleo de Repressão a Crimes Contra a Saúde (Nucrisa), às 20 horas. No documento oficial, a chefe da UTI ainda é ligada à prática de eutanásia de forma rotineira. "No dia em que ela mandava 'lavar e fazer limpeza geral', podia saber: logo começavam a descer cadáveres do quarto andar."

Na próxima segunda-feira, a delegada Paula Brisola, do Nucrisa, pretende entregar o inquérito, com cerca de mil páginas, segundo informou a polícia ao Ministério Público do Paraná. As investigações tiveram início em março do ano passado, após cinco ligações feitas anonimamente para a Ouvidoria do Estado.

Em seguida, as reclamações foram encaminhadas ao MP e o Nucrisa assumiu as investigações. Essa investigação foi feita com base em denúncias de pessoas que trabalharam na UTI e nos depoimentos de familiares de pacientes mortos na UTI, além do uso de interceptações telefônicas (32 horas de conversas) com autorização judicial. Há ainda cinco prontuários de pessoas mortas entre 24 e 28 de janeiro.

Procurada para comentar as denúncias, a polícia alegou que não terminou as investigações. O MP não vai se pronunciar.

Prisão. Virgínia segue presa na Penitenciária Feminina de Piraquara, na Grande Curitiba. Quatro colegas dela estão detidos no Centro de Triagem, na capital paranaense.

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