Mediador encontra dupla que quis matá-lo

José Júnior, coordenador do AfroReggae, debateu alternativas à invasão com traficantes que pediram a facção para assassiná-lo

Bruno Paes Manso, O Estado de S.Paulo

29 de novembro de 2010 | 00h00

Acostumado a mediar conflitos no Rio, o coordenador executivo do AfroReggae, José Júnior, viveu anteontem uma das situações mais delicadas da carreira ao subir a Favela da Grota para conversar com traficantes do Complexo do Alemão. Teve de debater alternativas para a invasão iminente com dois integrantes do tráfico local que há pouco mais de um mês tiveram cartas interceptadas pela inteligência da polícia nas quais solicitavam autorização de lideranças presas do Comando Vermelho para assassinar o líder do AfroReggae.

As cartas com ameaças a José Júnior foram publicadas em outubro pelo Estado. "Como a situação estava tensa e naquele grupo estavam pessoas que desconfiaram da minha integridade como mediador, fiquei com medo de que eu pudesse ser feito refém e usado como moeda de troca", conta.

No encontro, os traficantes negaram que tivessem a intenção de matá-lo. "Falei para evitarem o confronto, caso contrário, iriam morrer." Eles concordaram e muitas lideranças do tráfico fugiram, abandonando drogas e armamentos.

As conversas com moradores e traficantes do Complexo do Alemão começaram na sexta-feira, quando as forças de segurança sinalizavam a tomada da região. Júnior recebeu diversos telefonemas e não teve dúvidas de que era importante conversar, já que o AfroReggae desenvolve importantes trabalhos sociais tanto na Grota quanto na Vila Cruzeiro. Temia apenas que os planos de defesa do tráfico pudessem usá-lo como escudo.

O trabalho da polícia de abalar emocionalmente os traficantes, com sobrevoos permanentes de helicópteros, havia surtido efeito. Nervosos, eles não queriam confronto. Júnior já havia conversado também com policiais, que teriam garantido que não haveria humilhações ou "esculachos". "Caso tudo continue como foi (o Estado falou com o líder do AfroReggae às 16h30 de ontem), avalio o trabalho como bom. Vamos torcer para que continue assim, sem baixas", disse.

Divisor. Na avaliação de Júnior, houve um exagero ao se falar de 500 a 600 traficantes no local. "Boa parte é formada por adolescentes, sem passagem, ingênuos, que estão no crime mas que têm uma vida pela frente."

Para Júnior, o dia pode ser considerado um divisor de águas, já que caiu o mito de que existem lugares no Rio onde a polícia não entra. O Complexo do Alemão, considerado o quartel general do Comando Vermelho, era um deles. "O modelo do tráfico de drogas no Rio está em xeque. É muito custoso e envolve gastos exagerados com domínio de territórios, armamentos, propinas a policiais, o que torna o negócio inviável. Isso também deve mudar", afirma.

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