Daniel Teixeira/Estadão
Daniel Teixeira/Estadão

'Me chamavam de boliviano assassino', diz ex-suspeito de matar família em Ferraz

Solto após reviravolta na investigação, Alex Pedraza, de 33 anos, fala em entrevista ao 'Estado' que temeu ser condenado pela morte da namorada e dos quatro filhos dela

Luciano Bottini Filho, O Estado de S. Paulo

27 de setembro de 2013 | 12h05

SÃO PAULO - A primeira coisa que o boliviano Alex Guinones Pedraza, de 33 anos, fez ao ser solto da cadeia na terça-feira, 24, foi assistir ao filme "Cidade dos Anjos". O DVD é o último presente que recebeu da namorada, Dina Vieira da Silva, de 42 anos, no domingo, dia 15, quando ele e a filha de 6 anos do casal deixaram o apartamento da família, em Ferraz de Vasconcelos, na Grande São Paulo. Um dia depois, ele encontrou os corpos de Dina e seus quatro filhos, todos menores de idade, dentro da residência. Detido por suspeita de ter matado a família por envenenamento, acabou solto e, em entrevista ao Estado, relata o que passou nos últimos dias.

Pedraza não pode enterrar a família e ainda não contou à filha que a mãe e os irmãos morreram. A polícia declarou no início das investigações que pediu a sua prisão temporária após levantar queixas de agressão de Dina contra ele e apreender restos de bolo e suco que poderiam estar envenenados. Na televisão, o chamavam de "boliviano assassino". Uma reportagem mostrou que Dina comunicou ter sido ameaçada de morte. O caso foi relacionado a outros familícidos, como o da família Pesseghini, em que um garoto de 13 matou os pais, a avó, a tia-avó e depois se suicidou. Falava-se em uma onda de assassinatos entre pais e filhos.

Desde o começo Pedraza alegou inocência. Agora, a hipótese mais forte no inquérito é que a família tenha sido vítima de um vazamento no aquecedor de gás. Já no registro de ocorrência havia uma pista de que faltava uma tubulação no aparelho do imóvel, mas todas as atenções foram parar no boliviano. "Fiquei com medo. Pensei que ela poderia ter envenenado todo mundo e a culpa cair em mim", disse.

Leia abaixo a entrevista com Pedraza, concedida ao Estado:

Estado - Você encontrou sua namorada e os filhos delas mortos. Enquanto estava desesperado, foi logo visto como suspeito. O que você sentiu na prisão?

Pedraza - Foi muito ruim ficar preso durante o enterro. O pior foi não poder estar com ela (Dina), se despedir dela e das crianças. O pessoal da carceragem nem teve contato comigo. Eu fiquei fechado em uma cela. Não tinha nenhum contato com o exterior. As únicas pessoas que eu falava eram as que estavam na mesma cela que eu. Um estava preso por tentativa de homicídio, outro por não pagamento de pensão e mais um por tentativa de estupro. Não sabia nenhuma notícia de nada.

Estado - Como o trataram no depoimento?

Pedraza - Foi tudo bem. Os próprios investigadores acreditaram na minha inocência.

Estado - Então por que acha que ficou preso?

Pedraza - Só sabia de uma ocorrência da Maria da Penha. Os boletim por ameaça de morte eu nem sabia. Não entendi nada.

Estado - Como estava o relacionamento de você com Dina?

Pedraza - A nossa vida sempre foi assim, cada um na sua casa. Nos finais de semana a gente ficava junto. Não tínhamos um plano de mudar essa situação. Nós estávamos bem.

Estado - Como foi o último final de semana juntos?

Pedraza - Estávamos felizes. Ela pensava em comprar um carro. Fomos ao mercado. Fizemos compras. Almoçamos e conversamos (nesse momento ele começa a chorar). Ela estava muito carinhosa e deu um filme para eu assistir, "Cidade dos Anjos". Na hora em que ela foi se despedir da filha, ela ficou abraçando bastante.

Estado - Havia suspeitas sobre o vazamento de gás?

Pedraza - Não tinha cheiro de gás nenhum no domingo. No primeiro dia em que a gente se mudou, tinha cheiro de gás. Aí ela chamou o síndico para arrumar. Ele falou que tinha que colocar uma veda-rosca. O síndico disse que poderia usar um chuveiro normal, elétrico. Ele avisou que estava faltando a chaminé, o respiro de ar. Ele ia cobrar R$ 100 para arrumar o veda-rosca e puxar o fio da antena. Com esse dinheiro, ele também compraria a chaminé.

Estado -Como descobriu que a família estava morta?

Pedraza - Cheguei por volta das 23h, a porta estava fechada. Dei a volta pelo quintal. Vi pelas janelas as crianças jogadas no chão. Como era 23h, eu achava que elas estavam dormindo. Fiquei batendo na janela achando que elas fossem acordar. Vi que a Vitória estava deitada, e suas pernas sujas. Nessa hora, o síndico estava passando e eu disse: "vem aqui, as crianças estão desmaiadas". Comecei a chorar e gritar. Um dos vizinhos de cima era policial e falou para arrombarmos a porta. Ele pegou a arma e desceu. Ninguém sabia o que era. O policial arrombou e não me deixou entrar. Só vi a Vitória e a Carol pela porta, detrás. Os três mais novos me chamavam como se fosse pai. Conhecia todos desde criança.

Estado -A sua filha já sabe que a família morreu?

Pedraza - A psicóloga disse que eu não posso esconder isso dela. Eu vou contar quando for viajar para o sítio.

Estado - Chegou a pensar que fosse ser condenado?

Pedraza - Fiquei com medo. Sabia que não era eu. Passa isso (ser condenado) na cabeça. Se ela se envenenou e botam a culpa em mim? Nunca me imaginei numa situação dessas, fiquei um pouco confuso. Vai que ela tivesse feito isso mesmo?

Estado - O que fez quando saiu da prisão?

Pedraza - Está todo mundo em cima de mim. Não deu tempo de fazer nada. Fiquei escondido. Achei uma injustiça falarem que eu era o culpado. Já falavam que eu era o boliviano assassino. Falei que não era eu desde o começo. Falaram que eu estava bêbado, mas eu não conseguia nem falar. Fiquei desesperado. Mas não estava bêbado.

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