WERTHER SANTANA/ESTADÃO
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Matsunaga morreu imediatamente após ser baleado, diz médico legista

Sami El Jundi depôs como testemunha convocada pela defesa de Elize Matsunaga; parecer contradiz laudo apresentado pela acusação 

Felipe Resk, O Estado de S. Paulo

02 Dezembro 2016 | 12h40
Atualizado 02 Dezembro 2016 | 19h33

SÃO PAULO -  No depoimento mais longo e polêmico do júri de Elize Matsunaga até o momento, o perito criminal e médico legista Sami El Jundi afirmou que o empresário Marcos Kitano Matsunaga, herdeiro da Yoki, morreu instantaneamente após ser baleado no lado esquerdo da cabeça. A testemunha foi convocada pela defesa da ré e atuou como um dos assistentes na exumação dos restos mortais da vítima, exame realizado após o surgimento de dúvidas sobre o laudo necroscópico.

Em seu parecer, o legista traçou uma análise sobre o possível trajeto da bala, com base no orifício de entrada e em marcas de fraturas encontradas no crânio de Marcos. "O trajeto implica a destruição do bulbo. Há duas consequências: a parada de todas as funções neurológicas e a destruição do controle respiratório", afirmou El Jundi. "Eu não tenho nenhuma dúvida pela morte cerebral. Para efeitos práticos, a morte foi instantânea."

A interpretação de El Jundi diverge do parecer feito pelo perito Carlos Alberto de Souza Coelho, que também atuou como assistente na exumação. Para Coelho, que prestou depoimento na quinta-feira, 1°, Marcos não teve morte instantânea e começou a ter o pescoço cortado quando ainda estava vivo. O responsável pelo laudo da exumação, Ruggero Bernardo Felice Giudugli foi inicialmente chamado pela defesa, que depois abriu mão do seu depoimento e o liberou.

A discussão é importante para mostrar aos jurados se Elize cometeu assassinato por meio cruel e se deu chance de defesa para vida - o que agrava a pena em caso de condenação. A ré é julgada por homicídio triplamente qualificado, além de destruição e ocultação de cadáver. O crime aconteceu em maio de 2012.

Também segundo o legista, a munição usada por Elize é do tipo expansível, que aumenta o diâmetro do orifício provocado pelo tiro e provoca maior impacto, uma vez que não atravessa os dois lados do crânio. "É um tipo de munição de defesa, o objetivo é pegar toda a energia cinética e descarregar no alvo."

De acordo com ele, não é possível precisar a distância que o disparo foi feito sem exame laboratorial. Os exames também não mostrariam a presença de tecidos vivos nas partes esquartejadas. 

"Os exames não encontraram resquícios de arma de fogo, então se exclui o disparo à curta distância", afirmou. Outros peritos disseram que o tiro foi dado à curta distância, já que o cadáver apresentava "tatuagem", uma espécie de queimadura, na região atingida.

Na versão apresentava pelo legista, a presença de sangue no pulmão da vítima pode ser explicado pela fratura na base do crânio, por onde a substância poderia ter escorrido, ou durante o corte do pescoço, por gravidade. "Quando há a morte, o sangue não evapora. Há sangramento ao cortar um cadáver", disse.

Polêmica. O depoimento de El Jundi começou pouco depois das 10h e durou mais de oito horas, sem considerar uma hora de pausa para almoço. Em um dos momentos mais tensos do julgamento, o advogado Luiz Flávio D'urso, assistente da acusação, protestou contra comentários da testemunha, que ele considerou ofensivo. D'urso pediu que o depoimento seja encaminhado ao Conselho Regional de Medicina (CRM) para apuração. 

Ao responder perguntas da defesa, El Jundi usou expressões como "só se ele tivesse dois ânus" e "se isso não é sangue, é catchup". "E que conste os comentários em ata para processo de crime contra a honra da vítima", afirmou o advogado.

A defesa acusou D'urso de tentar ameaçar a testemunha. "As falas foram para exemplificar. O corpo de jurado não é técnico, as falas são para compreender", afirmou a advogada Roselle Soglio. Houve bate boca e ameaças de processo entre os advogados.

El Jundi satisfez todas as perguntas da defesa, mas disse não poder responder a maior parte das questões do promotor José Carlos Cosenzo - uma delas justificada por um erro de conta matemática do representante do Ministério Público. "Suas perguntas são mais difíceis", justificou o legista. "É que eu não combinei com você", respondeu Cosenzo. Na última, o perito confundiu a região do crânio atingida pelo disparo. "Não confio mais mas nas suas respostas", disse o promotor, ao encerrar sua participação.

 

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