Hélvio Romero/AE
Hélvio Romero/AE

Masp deve manter fachada de anexo

Vizinhos fizeram abaixo-assinado contra projeto de cobrir o Edifício Dumont-Adams

Tiago Dantas JORNAL DA TARDE, O Estado de S.Paulo

26 de outubro de 2010 | 00h00

A direção do Museu de Arte de São Paulo (Masp) estuda manter a fachada original do Edifício Dumont-Adams, seu vizinho na Avenida Paulista, região central, que está sendo reformado para funcionar como um anexo do museu. Ainda não foi descartada, porém, a proposta apresentada no início do ano de construir uma fachada de vidro para o prédio.

A possibilidade de modificar o visual do Dumont-Adams provocou a mobilização de moradores e protetores do patrimônio arquitetônico. Em maio, a Associação Preserva São Paulo e a Sociedade dos Amigos e Moradores do Bairro Cerqueira César criaram um abaixo-assinado na internet contra a destruição da fachada do edifício. Até ontem, 279 pessoas haviam assinado o documento digital.

O Dumont-Adams é um dos prédios mais antigos da Paulista - é anterior ao próprio Masp. "Manter a fachada original não causará nenhum prejuízo ao projeto", afirma o presidente do Preserva São Paulo, Jorge Eduardo Rubies. Ele afirma ter entregue, entre julho e agosto, um abaixo-assinado em papel com cerca de 2 mil assinaturas à direção do Masp, à Vivo e à Nestlé.

A operadora de telefonia foi acionada porque comprou o prédio em 2005 e o doou ao museu. Na época, a empresa pretendia colocar anúncios no topo do prédio. Já a Nestlé teria se comprometido, no início do ano, a doar ao Masp uma parte da verba necessária para a reforma em troca da exploração de um café panorâmico que deve funcionar no último andar do Dumont-Adams. As empresas não se pronunciaram.

Embora não seja protegido pelo patrimônio público, o imóvel está dentro do raio de 300 metros do tombamento do Masp e por isso precisa respeitar algumas regras, como não exceder a altura de 70 metros. O museu, projetado pela arquiteta Lina Bo Bardi e inaugurado em 1968, é tombado nas esferas municipal, estadual e federal.

Polêmica. O primeiro projeto de reforma do Dumont-Adams previa a instalação de uma torre no topo do prédio, com 125 metros de altura. No entanto, o Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental de São Paulo (Conpresp) não aprovou a ideia. A torre fazia parte de uma das contrapartidas da Vivo, que colocaria um painel com publicidade no topo. No entanto, após a Lei Cidade Limpa, a empresa desistiu do plano.

"Na época, entendemos que a edificação vizinha não devia chamar mais atenção que o Masp", afirma o presidente do Conpresp e professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP (FAU), José Eduardo de Assis Lefèvre. "Acho que a melhor opção é manter a fachada original ou fazer uma fachada contemporânea, moderna, mas discreta", avalia Lefèvre. Quem passa hoje pela Avenida Paulista pode perceber que o Dumont-Adams está cercado por uma tela.

Por conta da demora na definição do projeto, em 2006 a Vivo pediu o imóvel de volta, iniciando uma briga judicial. Em fevereiro de 2009, um acordo na Justiça determinou que o Masp reformasse o imóvel em um prazo de 27 meses.

PARA LEMBRAR

Obra vizinha foi suspensa

Em maio, a construção de um prédio de escritórios ao lado do Masp foi suspensa a pedido do Ministério Público após o Estado revelar que a obra não tinha autorização do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). O projeto do Paulista Corporate prevê um empreendimento com 19 andares e mais de 200 salas comerciais - a mais cara custa R$ 8,4 milhões. Como o Masp é tombado, qualquer modificação em seu entorno precisa de autorização dos órgãos de patrimônio. No caso do Paulista Corporate, a empresa responsável pela obra, a Gafisa, não havia pedido o aval do instituto nacional. Duas semanas depois, a obra foi retomada, após sair a liberação.

O DUMONT-ADAMS POR DENTRO

Construído entre os anos 1954 e 1956 pelo engenheiro e fazendeiro Plínio Adams, o Dumont-Adams foi concebido como um edifício de luxo. Logo tornou-se um marco na Avenida Paulista. Com dez andares e 54 metros de altura, tem dois apartamentos por andar e um amplo salão de festas na cobertura. No hall de entrada, o piso e as paredes são de mármore e a porta foi feita pelo Liceu de Artes e Ofícios. O prédio pertenceu à família Adams até o início desta década, quando foi vendido por Maria Helena Dumont Adams, filha do engenheiro, à Vivo.

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